Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Platónico

 

 

Gosto de ti com uma intensidade estonteante.

E na impossibilidade de viver-te na imensurável arte de amar, perco-me na imensidão desta utopia que me envolve e desespera.

Mas continuo a amar-te. Fantasiosamente, arrebatadoramente.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: google imagens


a música que estou a dançar: I`m My Own Enemy de Yngwie Malmsteen
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dançado por Ametista às 23:52
| dança comigo em palavras |

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
Palavras para uma imagem

 

A Torre de Babel (1563), Pieter Bruegel

 
 

Um dia, quero morrer contigo.

Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.

Hoje a minha alma jaz no velho castelo assombrado, outrora nosso, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou, esvoaçam por entre as vidraças quebradas pelas correrias do tempo. São como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.

E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem névoas que evaporam ao passar.

Quis devorar o mundo, a terra e os céus. Quis aniquilar este amor, esta paixão (sei lá) e renascer das cinzas. Deixei de saber quem sou e onde pertenço, perdi-me na turbulência dos sentidos e fugi de ti, de todos e de mim. Somos tão diferentes.

O sonho ruiu, o meu, de mim, de ti, de nós. Desmoronou-se o nosso castelo, como se fosse de areia a desfazer-se na maré vaza. E eu, em que me transformei? Em sombra, apenas em sombra.

Refugiada numa torre em ruínas recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu pelas veredas em redor da torre, em atalhos obscuros sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como dois espíritos desconhecidos que se cruzam nas brumas de um labirinto.

Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma do velho castelo. Eu, parto solitária pelas neblinas no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.

Toco o céu, beijo uma estrela e abraço um anjo num murmúrio: 

- Por enquanto, estou viva. A torre caiu.

 

 

 

(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: numa torre
a música que estou a dançar: I`m My Own Enemy de Yngwie Malmsteen
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
Histórias de Abril

 

Pedi ao rio das memórias que corresse a meus pés e me deixasse ficar junto às bermas, onde acabam as ausências. E tu vieste até mim numa doce manhã de Abril.

Trazias contigo retalhos de um lugar onde as palavras ficaram, embebidas nas lagoas do tempo, esquecidas pela demora das angústias.

Vieste, despido de encontros, transbordavas emoções do que não viveste e confessaste-te no silêncio dos atalhos.

Colheste uma flor do meu jardim e enfeitaste os meus cabelos, sentiste o aroma a Primavera, ajoelhaste diante de mim e disseste:

'Voltei para ter o teu perdão ou morreria no vazio dos desertos, sem letras e sem sentidos e onde tudo acaba em solidão'.

Acordei de um sonho em fins de Abril. Estava sentada na berma de um rio que corria a meus pés. Ao longe, um deserto envolvia um lago azul onde palavras repetidas dançavam nas areias.

 

 

 

(Texto escrito em 3 de Dezembro de 2011, adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 


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Segunda-feira, 2 de Abril de 2012
Palavras para uma imagem - Salão de Baile

 

  

Moulin de la Galette (1889), Toulouse-Lautrec

 

Os sonhos morreram.

Como se o mundo acabasse no instante, como se o céu caísse sobre os campos e as nuvens flutuassem nos rios. Como se o sol empalidecesse e chorasse, queimando as árvores que crescem e as flores que nascem, secando as águas que correm devagar.

Como se parassem os relógios, terminassem as tardes e as noites surgissem nas manhãs. Como se já não houvesse lua e o chão mergulhasse numa sombra.

Como morrem as palavras. Como se as letras fugissem, desordenadas, dos livros em branco pelas histórias esquecidas. Como se os olhos já não lessem e as mãos já não tocassem nas páginas que ficaram.

Como se os bosques encantados perdessem a magia e as florestas se despissem pelo cessar da vida. Como se os lobos deixassem de uivar e os pássaros ficassem sem asas para voar.

O meu sonho morreu.

Como se os anjos despertassem sobre a terra, como se o luto mudasse de cor e os homens se vestissem de branco. Como se o destino fosse interrompido e os fantasmas dominassem o universo.

Resta-me dançar, de alma pequena mas de corpo inteiro. Como se dançasse num salão de baile, onde as gentes se escondem num atropelo para escapar aos dias mortos. Sucumbem, por entre conversas de silêncio inacabadas e passos de dança frenéticos. E bailam, bailam até ao fim das horas, de olhar vago e sem sorrisos porque a vida fugiu com os sonhos apagados.

Com o meu sonho morreu a minha alma, mas também eu dançarei sofregamente até que o meu corpo tombe e adormeça.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a inventar histórias
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Segunda-feira, 26 de Março de 2012
Memórias de Primavera

 

Lembro-me, lembro-me, oh se me lembro. Saudosamente.

As glicínias enfeitavam a pérgula e coloriam as pedras da calçada no seu reflexo com o sol, as árvores cheiravam a arco-íris e a avenida transformava-se num jardim de aromas doces.

Eu ia buscar a minha bicicleta encarnada e andava em redor dos canteiros onde as flores desabrochavam a sorrir. Nas bermas do rio os namoros despertavam, eu sentava-me na ponte debruçada sobre as águas e, descalça, sentia o refrescar das manhãs pelo chapinhar dos patos. Depois, rebolava pelo relvado onde as plantas trepadeiras se beijavam.

Voltava para casa numa correria, dançava pelos quintais perfumados pela flor de laranjeira e subia às árvores a cantar. Apanhava laranjas e tangerinas, pulava pelos telhados e brincava com os gatos que passavam a vadiar.

Saltava à corda, jogava à macaca e, nos fins de tarde, ia para o sótão construir castelos de lego. À noitinha, inventava sonhos no cintilar das estrelas e escrevinhava pequenos contos de príncipes e princesas sob o roseiral a florir.

E lembro-me, lembro-me nostalgicamente. Da minha mãe me embalar no seu colo a cada luar, acariciar os meus cabelos e contar-me histórias de encantar para eu adormecer. Era tudo tão suave.

Em tempos de feira de Março, levava-me a andar de carrossel com as minhas irmãs e, juntas, comíamos algodão doce por entre as gentes que passeavam numa alegria contagiante. Lembro-me dos rostos, do brilho nos olhares e do rasgo dos sorrisos.

Lembro-me, oh se me lembro de, num dia primaveril, lhe dizer:

- Mãe, não quero crescer.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: criança
a música que estou a dançar: Somewhere over the rainbow


Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
Fazes-me falta (uma história piegas)

 

Amo-te acima de todas as coisas, mas sinto-me amarrada a um abandono extremo que me rompe as entranhas.

A minha alma está despedaçada, quebrou-se ao perder-te à chegada, tu que surgiste no meu caminho sem o destino avisar, tu que me fizeste acreditar que vale a pena esperar pela entrega no seu todo e vivê-la soberbamente porque, disseste-me tu, temos todo o tempo do mundo. Lembras-te?

Tu, sim tu, que estás aí do outro lado da ponte que nos separa, tu que me ensinaste a crer que existe uma estrada colorida que nos espera, tu que te repetes no adjectivo bonita e te declaras por entre as letras daquele verbo que conjugas na perfeição, me toca na sua profundez e me acelera o coração. Aquela palavra, adoro-te, talvez a mais banalizada mas a mais bela de todas as palavras e que eleva todos os sentidos.

E agora estou aqui, perdida na minha embriaguez de viver-te por completo, de tocar a tua pele, de ter-te a meu lado e ficar assim, suspensa num mundo que não é o meu e aqui permaneço, viva para ti, no lugar que é teu mas sem rumo à vista, eu que tanto te choro. E questiono-me, pergunto aos mestres da sorte e do infortúnio, donos dos mistérios da vida, a razão deste lamento que me sufoca e, ao mesmo tempo, me obriga a respirar a todo o custo porque és tu quem quero, és tu quem me preenche ou, já nem sei, se não serás a razão deste vazio que tomou posse de mim, da angústia que bateu à minha porta e entrou de rompante sem pedir licença.

O cinzeiro transborda de pontas dos cigarros que já fumei, as garrafas de vinho estão vazias, quem dera que fosse por um brinde entre nós mas que não aconteceu. Afogo-me na tentativa de afastar de mim este engano mas não consigo esquecer que existes, não consigo apagar o teu nome. E dói-me, dói-me sentir-te por perto e não poder abraçar-te, é uma dor quase insuportável, é como morrer devagar com o remédio mesmo a meu lado mas não conseguir alcançá-lo e não há mais nada que possa minorar este mal, não há nada a fazer. Nada.

Arrancaram as asas da minha libertação, sinto-me prisioneira de um amor morto à nascença, vagueio sem rumo e consigo avistar um túnel mas não tem luz, é escuro como breu, não alcanço mais nada para além de uma lacuna e não há saída. É como estar perdida num labirinto, despida de amor próprio, completamente nua e conseguir ouvir a tua voz ecoar sobre o meu corpo frágil e a rasgar-me ainda mais a alma ferida.

Fazes-me falta. E eu quero gritar e não posso, preciso de gritar e não consigo.

 

 

  

(Texto escrito em 5 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

 

Leonor Teixeira

 

  


sinto-me: vazia


Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Serás tu ou estarás lá?

 

Disseram-me que estás aqui.

Foi uma borboleta que me pediu para te procurar e para, depois de te encontrar, reinventar-te.

Estarás tu nas páginas dos meus livros de cabeceira, que folheio todas as noites antes de sonhar? Serás tu a alma do anjo que me adormece serenamente a cada madrugada? Estarás tu em cada canto desta casa, em cada quadro, em cada imagem, em cada luz? Estarás tu em cada nota de música que ponho a tocar ou serás a tinta a óleo dos pincéis que me fazem pintar todas as telas?

Serás tu cada folha, cada ramo de árvore que foco com doçura sempre que vou ao jardim fotografar? Estarás tu numa pétala de rosa ou serás uma outra flor, das mais belas que contemplo a cada fim de tarde e colho para enfeitar os meus cabelos?

Estarás tu no brilho das estrelas, todas as que olho a cada anoitecer ou serás o sol que nasce resplandecente a cada alvorada? Estarás tu nas gotas da chuva que cai em dias cinzentos ou serás uma das cores do arco-íris?

Serás tu o uivo de um lobo que chora na escuridão pela ânsia de correr nas florestas ou serás o canto de uma andorinha que chama por manhãs primaveris?

Se assim for, se estiveres em todos os lugares e fores todas as coisas que estão vivas e eu puder escolher, meu amor, quero procurar-te no mais alto das montanhas, encontrar-te nas asas de um pássaro e contigo reinventar as nossas almas.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a inventar-te em cada coisa
a música que estou a dançar: A Thousand Years de Christina Perri
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Esquecer, renascer

 

Um dia, quero morrer contigo.

Quando subires aos céus e chegares às estrelas, perto do sol e da lua, quero estar a teu lado para, finalmente, renascer.

 

Hoje a minha alma jaz na velha casa em ruínas, outrora nossa, o meu corpo vagueia pelas ombreiras das portas. As janelas batem nos parapeitos com o vento que sopra voraz, das prateleiras empoeiradas caem os livros antigos que lemos, são iguais às nossas vidas. Há folhas que se soltam do diário da nossa história, espalham-se pelo chão que range a cada passo que dou. É como as horas dos dias que nos pertenceram, perderam-se num momento intemporal.

E eu abandono-me. Abandono-me silenciosamente, fujo do passado em direcção incerta, alcanço o barco onde navegámos sem rumo e que morre agora em terra firme depois da procura de um rio que corre turvo. Não consigo tocar nas suas águas, parecem bolas de neve que se desfazem ao passar.

Recuso-me respirar, suspiro como que pela última vez, sinto-me perto do que não cheguei a conquistar. Onde ficaste, alma que se perdeu por atalhos obscuros, em estradas sem saída? Até no final se repete o desencontro, o nosso, como duas sombras que se cruzam, desconhecidas.

Apagam-se as luzes, desvanecem as cores, tudo se torna escuro e tu ficas fantasma da velha casa. Eu, parto solitária no instante em que te esqueço e caminho numa nuvem que desceu à terra.

 

Por enquanto, estou viva.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


a música que estou a dançar: Jar of Hearts de Christina Perri


Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
FUI PLAGIADA #2

 

O Plagiador - HC Poesias - não se dignou a responder aos meus comentários nem tão pouco se deu ao dever de me deixar um pedido de desculpas, tendo já apagado alguns dos meus textos do seu blog.

 

Ainda permanecem como sendo seus os seguintes:

 

Queria escrever-te mais uma carta

Esta não é uma história de Amor

A minha feiticeira

 

Os originais, os meus:

 

Post-Scriptum

Esta não é uma história de amor

Uma bruxa diferente

 

Quero agradecer, desde já, a quem me deu apoio e compreende a minha revolta.

Obrigada.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: revoltada
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Domingo, 11 de Dezembro de 2011
FUI PLAGIADA!

 

Hoje, fiquei 'doente'.

Encontrei um plagiador que copiou imensas histórias minhas em Agosto de 2011 alterando do seu conteúdo substantivos e adjectivos, tempos verbais, nomes de personagens e títulos.

 

http://hcorreia2003.wordpress.com/2011/08/page/2/

http://hcorreia2003.wordpress.com/2011/08/

 

O blog: HC Poesias

 

A cópia de um dos textos:

 

http://www.copyscape.com/?q=http%3A%2F%2Fleonorteixeira2.blogs.sapo.pt%2F&src=front

 

O original, o meu:

 

http://leonorteixeira2.blogs.sapo.pt/30616.html

 

O Copyscape só me deu acesso às páginas uma vez, pelo que só consegui a prova da cópia de um dos textos.

 

Já enviei comentários e mensagens ao plagiador, mas ainda não me respondeu.

Estou sem palavras, tamanha é a minha revolta.

 

Repito o que escrevi aqui e aqui.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: revoltada
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Sábado, 3 de Dezembro de 2011
O rio que sonho

 

Pedi ao rio das memórias que corresse a meus pés e me deixasse ficar junto às bermas, onde acabam as ausências. E tu vieste até mim.

Trazias contigo retalhos de um lugar onde as palavras ficaram, embebidas nas lagoas do tempo, esquecidas pela demora das angústias.

Vieste, despido de encontros, transbordavas emoções do que não viveste e confessaste-te no silêncio dos atalhos.

Colheste uma flor do meu jardim e enfeitaste os meus cabelos, sentiste o aroma a Primavera que disfarçou o Inverno, ajoelhaste diante de mim e disseste:

'Voltei para ter o teu perdão ou morreria no vazio dos desertos, sem letras e sem sentidos e onde tudo acaba em solidão'.

 

Acordei de um sonho. Estava sentada na berma de um rio que corria a meus pés. Ao longe, um deserto envolvia um lago azul onde palavras repetidas dançavam nas areias.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


a música que estou a dançar: Such A Lonely Soul de Anna Ternheim
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011
Palavras para uma imagem - Lá fora

 

(Il Telescópio de René Magritte)

 

Às vezes, oiço vozes para lá da janela do meu quarto. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.

Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio lá fora por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.

Regresso, sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega junto à vidraça, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão, perto do parapeito.

Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua para lá da janela, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.

Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.

Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo a janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.

Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.

 

 

(Texto escrito em Março de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


a música que estou a dançar: Lovers Dream de Anna Ternheim
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
Um serão diferente

 

 

Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.

Recordo-me, principalmente, daquela noite fria e chuvosa de Novembro em que me levaste a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.

Encaminhaste-me à sala, acendeste a lareira e foste buscar café e chocolate quente. Sentámo-nos no chão, frente a frente, no meio das almofadas pretas e vermelhas espalhadas sobre um enorme tapete persa e debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Por entre velas acesas entrámos no mundo das adivinhas, discutimos existências anteriores e contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que acabaste por me oferecer dentro de uma caixinha de cartão reciclado.

Esquecemo-nos dos relógios, falámos horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm uma cumplicidade extrema e inabalável. Perdemo-nos nas palavras até ao amanhecer e, unidos por gestos de afecto, partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos enquanto a chuva caía intensa lá fora.

Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as nossas declarações transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.

Puseste a tocar uma música suave, defumaste um incenso e convidaste-me para dançar. Rodopiámos um no outro até ao fim da noite numa tranquilidade aconchegante e quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.

Encontramo-nos na praia? Acendemos uma fogueira, bebemos café e chocolate quente e voltamos a dançar, pediste-me na despedida, como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adeus fosse um ponto de partida para um novo encontro. Como tu próprio disseste, entre a areia e o mar.

 

 

(Texto escrito em Janeiro de 2011, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


a música que estou a dançar: Feel de Skunk Anansie


Domingo, 13 de Novembro de 2011
Mudar de vida, viver com um sonho

Há sonhos que se lembram por breves instantes e há os que ficam para sempre.

Laura recorda-se de um sonho que teve, talvez o mais sombrio de todos os que traz na memória. Ou o mais desejado, porque consegue ser um pouco feliz ao revivê-lo.

Todas as manhãs, bem cedinho, um denso nevoeiro encobria os raios de sol que incidiam, pálidos, sobre uma floresta encantada que guardava uma pequena cabana desabitada, feita de ébano.

Por entre as folhas vermelhas e douradas caídas sob numerosos plátanos e faias que se beijavam Laura percorria os caminhos, os cantos e recantos daquele lugar sedutor. Descalça e envolta num manto branco, parava à porta da cabana e ouvia um choro de criança mas não conseguia entrar. Um corvo cantava por perto, deitava-se num suspiro, e um lobo uivava ao longe pelo dia que acabava de nascer. Tudo lhe parecia misterioso mas mágico.

Presas aos troncos mais robustos baloiçavam cartas de amor, imensas, umas dela outras de Duarte. Um dia, na alvorada, pegou em duas delas, tocou-as numa carícia e leu-as em voz alta a olhar para o céu por entre os ramos. Teve uma sensação etérea, algo surreal, do tão genuínas que eram as palavras que ficaram.

'Ainda hoje me declaro a ti como se fosse morrer amanhã, confesso-me nestas folhas de papel que vou amarrotando a cada linha que encho de letras. Tenho medo que não me oiças se tas disser, por isso escrevo na esperança de que me leias e talvez assim consigas sentir e perceber, finalmente, a razão do meu silêncio. Porque é assim que te amo. Em silêncio. Laura.'

'E é assim que eu te sonho. A passeares pela floresta, descalça e vestida de branco, a correr até à única toca que nos sorri e eu a encolher-me no teu colo para nos escondermos naquele sítio tão pequeno e secreto, tão nosso e demasiado longe da vida real. Sei que ficarás para sempre nesse bosque e é assim que te lembro. Duarte.'

Laura queria permanecer entre a verdade e a mentira, a saudade e a ausência dos momentos como uma boneca de cera, sem alma nem coração. Queria deixar-se estar, inerte, envolta em folhas de papel onde as palavras não cabiam, entre canetas e lápis que não escreviam. Com livros, muitos livros em branco e cartas de amor vazias que se espalhavam pela floresta encantada, onde o sol desmaiava nas manhãs e o nevoeiro angustiava o cair das noites.

Sentiu-se despertar debaixo de um abeto branco, o único no meio do extenso arvoredo. A seus pés, uma lamparina dourada brilhava, começava a ganhar vida e transformou-se. Um feiticeiro surgiu, com rosto de lobo e asas de corvo, sorriu-lhe e disse: 'A minha filha nasceu ontem e eu dei-lhe o teu nome'.

Laura não voltou a vê-lo.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a viver num bosque encantado
a música que estou a dançar: Can't take my eyes off you de Damien Rice


Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
Com poucas linhas

 

(Palavras para uma imagem de: Pablo Picasso)

 

 

Às vezes sinto-te chegar, pássaro branco. Trazes no bico uma flor.

Abres a porta do meu mundo e entras nos meus sonhos devagar. Recolhes-me no teu colo e afagas os meus cabelos lentamente com as tuas penas brancas, tocas no meu rosto na mais delicada carícia. E eu, em poucas linhas, pinto-te a carvão.

Em redor de nós, um vento brando que traz consigo um silêncio precioso e profundo. Nada consegue quebrar esta aragem que nos faz levitar.

Apertas-me docemente de encontro ao teu peito cor de neve e macio como lãs, envolves-me nas tuas asas de veludo e dançamos no silêncio que o vento trouxe, é-nos fiel e faz-nos subir até à nuvem mais alta. Enlaçamo-nos por entre gestos de uma ternura quase transcendental.

Respiram-se os nossos sentidos, tocam-se as nossas almas. É tudo tão suave. Pára o tempo, acaba o mundo e permanecemos neste misto de magia e inocência, meu pássaro branco.

Chamas por mim num cântico supremo e eu rendo-me a ti, tal como tu te entregas à sublime liberdade de voar. Passeamos sob um manto azul na amplitude de um intervalo, é como a vibração celestial das pradarias, e vagueamos no brilho das estrelas.

Não consigo já viver sem ti, dormes no meu ombro a cada noite fria, o teu sono é como a aragem quente que sopra nos desertos. Tu, que despes a chuva quando cai e a vestes de sol, aquele que inebria o meu leito e me alimenta.

É uma porta aberta para um sonho que se repete em cada pedaço de linha que traço com o lápis por entre os meus dedos. Uma linha apenas, das poucas que vou delineando até conceber o perfil do teu voo.

Não me fujas, ave branca, meu amparo constante que me eleva na utopia dos dias cinzentos. Leva-me contigo rumo ao arco-íris, transforma-me em pássaro com as linhas com que te desenhei.

 

 

(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a esvoaçar no intervalo
a música que estou a dançar: Who wants to live forever de Queen


Sábado, 22 de Outubro de 2011
Certezas e Incertezas

 

Laura carregava em si todas as incertezas, trazia consigo tudo o que não sabia. Só o mar lhe dava respostas a todas as perguntas, conseguia saber o porquê na imensidão do azul das águas revoltas, o porquê de todos os nãos que lhe rasgavam as entranhas como punhais.

Debaixo do sol vermelho libertava-se das armadilhas do destino, nas areias brancas era-lhe devolvida a liberdade. Pelas pradarias coloridas sarava as feridas abertas pelos espinhos dos atalhos obscuros que lhe ardiam na pele, nos montes e vales encontrava a saída do labirinto que a aprisionava, onde se perdia e se esquecia de quem era.

Duarte, por sua vez, tinha todas as certezas do mundo. Sabia os quês de todos os porquês, não tinha dúvidas nem receios. Não precisava dos oceanos nem dos campos, via tudo através das cidades por entre as estações das chuvas. Era racional, mas não tinha liberdade. Não se perdia na identidade, mas escondia-se em alguém que não havia.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a pensar na Laura e no Duarte
a música que estou a dançar: I don't love you de My Chemical Romance
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Sábado, 15 de Outubro de 2011
África dos meus sonhos - A minha versão

 

 

 

 

 

 

 

'Voa por mim, pássaro do sol.

Voa alto.'

África dos meus sonhos, de Kuki Gallmann

 

 

Kuki viu Paolo surgir por entre as colinas verdejantes e floridas, descalço como sempre gostara, andando em passos largos pelo chão quente do Quénia. Trazia consigo aquele sorriso rasgado no rosto, prova da felicidade que transportava tão docemente na alma, e o espírito de aventureiro que lhe era profundamente característico. Por cada árvore que passava colhia uma flor, um fruto, um ramo, uma folha, um cheiro de tudo. A sorrir, sempre a sorrir, chegava à fazenda e envolvia Kuki num abraço, rodopiava com ela no seu colo e cantarolava músicas africanas. Todo o seu contentamento era sinal de que cumprira mais uma missão em prol da vida selvagem para além do seu amor a Kuki, eterna companheira de aventuras, que deixara para trás a sua vida em Itália para ficar com ele, sempre fiel e leal, num rancho junto às florestas do Quénia.

Paolo não tinha morrido. Mas, a cada amanhecer, Kuki acordava assustada, de pele molhada e olhar aflito, o corpo trémulo por um sonho perturbador. Via o homem da sua vida adormecido como num sono sem fim, num lugar onde tudo era branco mas sombrio, e não acordava. Mas Paolo estava ali, deitado a seu lado, e o seu respirar era tranquilo, imensamente tranquilo. Kuki chegou a pensar que aquele sonho era significado de um presságio, um mau presságio, mas como poderia ser se, dizem, sonhar com a morte significa vida?

E Paolo vivia, vivia intensamente. Entregava-se de corpo e alma às mais nobres causas, todas as que envolvessem a protecção dos animais do Quénia, filhos de África. Acompanhava-o sempre nessa jornada Emanuele, seu enteado, cujo relacionamento era baseado numa entrega incondicional e desmedida, como pai e filho inseparáveis.

Todos os dias, ao entardecer, passeavam pelas planícies junto às nascentes e Emanuele, ainda criança, saltitava de braços abertos por entre lírios vermelhos selvagens, as suas mãos tentavam tocar as aves que pairavam nos ninhos a chilrear, os seus dedos dançavam como bailarinos ao sabor de um vento cálido. Paolo ficava sentado entre as acácias a observá-lo com um sorriso terno, na mais serena nostalgia. Emanuele parecia voar até aos céus, como o mais fascinante dos pássaros de África, e era tão alto o seu voo.

Emanuele era encantador, mas misterioso. Vivia de um segredo, o maior e mais perigoso de todos e que poderia ser-lhe fatal. A sua sedução por serpentes era incontrolável e, durante as manhãs e inícios de tarde, corria para o seu refúgio onde guardava as cobras que conseguira apanhar até então e cuidava carinhosamente de todas sem excepção, inclusivamente das mais mortíferas. Esta era a maior preocupação de Kuki que, desde que descobrira o esconderijo, temia pela vida do seu filho adolescente. Nos seus sonhos, eternos pesadelos, Emanuele perdia a vida violenta e tragicamente por uma mordedura de uma víbora.

Eram sonhos constantes, sonhos maus, pesadelos que a perseguiam a cada noite solitária, sempre que Paolo e Emanuele se ausentavam para pernoitar em defesa da natureza do Quénia.

- Afinal, estão ambos vivos - sussurrava à bebé Sveva, fruto da sua ligação com Paolo, sempre que a embalava no colo. - Os homens da minha vida só morrem nos meus sonhos porque, a cada despertar, eles estão aqui. Paolo descalço, como sempre, a cantarolar pela terra quente e húmida com um sorriso do tamanho do mundo e Emanuele a voar, na sua inocência e bondade, como um pássaro do sol.

Kuki, na sua tristeza e coragem, acreditou nessa utopia e fez dela a sua vida. Paolo e Emanuelle estavam ali, estariam sempre, para viverem com ela a fantasia da descoberta de toda a beleza de África e do tanto que as suas terras ainda tinham para lhes oferecer e ensinar.

Desde então, em cada fim de tarde, Kuki via um pássaro do Quénia, o mais belo que alguma vez vira, via-o voar devagar debaixo do sol que se punha resplandecente para lá dos rios. Bem perto, uma fogueira ardia nas colinas junto às acácias e os dois desapareciam no horizonte numa suavidade suprema. Paolo era o sol, Emanuele o pássaro.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a passear por terras de África
a música que estou a dançar: a banda sonora do filme


Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
O que sinto cá dentro

 

Um dia disseste-me 'eu não quero atrasar a tua vida'. Não atrasaste. A minha vida foi apenas interrompida, como se um ponto e vírgula deixasse o meu tempo inacabado e não permitisse completar o meu parágrafo, mudar de linha.

Não foste tu. Foi algo superior a ti, uma força desconhecida como aquela que criou a natureza e não conseguiu impedir que a mão do homem a destruísse.

 

Comparação exagerada? Talvez, mas é isto que sinto cá dentro.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: incompleta
a música que estou a dançar: Vida tão estranha de Rodrigo Leão
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
Não percebo, juro que não percebo

 

Depois do reencontro repleto de abraços e lágrimas de saudade, gestos de carinho e confissões de amor num tempo perdido, ele deu-lhe um beijo e disse: Gosto de ti. E ela perguntou: Gostas mesmo? Então, porque é que não lutaste por mim?

Porque gosto das duas, respondeu ele num sorriso embaraçado(?). Ela fixou-o nos olhos durante alguns minutos sem pestanejar, soltou uma gargalhada meio irónica meio incrédula e abriu a porta de casa como que a convidá-lo para sair. E ele saiu.

 

Dá para perceber?

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: a reflectir sobre o assunto
a música que estou a dançar: o ladrar dos cães ao longe
arquivos de dança:


Sábado, 1 de Outubro de 2011
Palavras para uma imagem

 

( A noite estrelada de Vincent van Gogh)

 

- Preciso de subir ao céu e pintar as estrelas - disseste-me num passado que se me depara tão longínquo.

E continuaste a falar com um sorriso soberbamente indecifrável, sentado na tua poltrona gasta pelo tempo, de olhos fechados como que num delírio consciente.

- Preciso de fugir do tumulto das cidades e ficar no silêncio que separa a realidade do infinito. Quero a utopia do intocável, sentir a velocidade dos ventos que vêm com o sol quando se junta à lua e fica a seu lado nas noites. Quero sentar-me nas nuvens que correm devagar e assombram a terra molhada, pelas lágrimas dos deuses que choram a cantar. Quero mudar as cores do firmamento.

Ficaste em silêncio por breves instantes, pareceram-me quase eternos, era um silêncio assustador mas imensamente celestial. Depois, prosseguiste na tua deslumbrante divagação.

- Quero que a lua e as estrelas se tornem amarelas, o amarelo é a cor da alegria, e o céu seja da cor do fogo para aquecer as almas frias que vagueiam na incerteza do destino. Vais buscar o teu violino e tocas aquela música que faz o pincel pular por entre os meus dedos manchados de tinta a óleo e me ajuda, na sua fascinante melodia, a criar este cenário?

Ainda me lembro de me piscares o olho no teu semblante matreiro, misto de inocência e maturidade. Misterioso, tu, tão angustiado com a vida que corria lá fora.

- No canto inferior direito da tela ficará a velha igreja que fez gerar em mim o amor incondicional a esta arte e, ao lado, pintarei a livraria pela qual não me deixei ensinar, do tão pouco que li. Afinal, acabei por ser quem não queria, uma sombra perdida na luz dos caminhos.

Senti o silêncio uma vez mais, era profundo como a saudade e vazio como a morte. Vi uma lágrima cair pelo teu rosto abatido pelo passar das idades mas o teu sorriso retornou invulgar, como sempre, e continuaste na tua fantasia.

- No canto inferior esquerdo desenharei a montanha que desejo subir um dia e, do seu cume, tocar o céu com as minhas duas mãos. Sabes? Quero pintar o sol de azul.

Décadas depois, dou por mim a olhar para a tua noite estrelada e penso em ti, meu adorado Van Gogh, tu que partiste tão cedo e não regressaste. Tu és o sol que guarda as estrelas num céu que parece cair e eclodir com a terra e eu vejo-te dançar nessa noite sem fim.

E pintas, pintas até sempre o fascínio das noites e tudo se torna azul, tão azul, sem cidades nem gentes. Adormecem os dias, as noites despertam com a serenidade das madrugadas pintadas de amarelo e o mundo transforma-se em sonho, no teu sonho.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


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Sábado, 24 de Setembro de 2011
Amor solitário

 

"Por todo o atelier pairava o aroma intenso das rosas e quando a branda aragem estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta a fragrância carregada do lilás, ou ainda o perfume delicado do espinheiro de floração rósea. Estendido no divã de bolsas de seda persas, a fumar, como era seu costume, cigarro após cigarro, Lord Henry Wotton só conseguia vislumbrar do seu canto as flores adocicadas e cor de mel de um laburno, cujos ramos trémulos pareciam mal poder suportar o peso de beleza tão fulgurante."

 

"O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde

 

(...)

Solitário. Sou um solitário. Por onde andas, querida Lauren? Partiste com o vento numa manhã quente de Outubro, desapareceste por entre as searas que estão para lá do jardim e não voltaste. Nesta casa permanece o teu cheiro, aquele que ficava agarrado à minha pele sempre que me abraçavas.

Esperaste por mim tantos anos depois de todas as minhas promessas, agora sou eu quem espera por ti. Perdoa-me, meu amor, por não ter cumprido tudo o que inventámos para nós.

Eras mais velha que eu, mas emanavas juventude. Acho que me apaixonei pela tua força de viver, pela tua inocente rebeldia e alegria contagiantes. Lembro-me do teu sorriso, quebrava qualquer ausência nossa e a tristeza quase insuportável de não poder estar a teu lado tornava-se menor. E tu, Lauren, eras tão imensamente leal.

Para lá da janela, o aroma quente das searas aproxima-se agora de mansinho com a aragem fresca dos fins de tarde e eu pressinto-te chegar. Vejo uma sombra, pareces-me tu, irradias felicidade e vens ao meu encontro. Sempre gostaste de correr pelas searas, sentias o sublime sabor da liberdade. Mas não, não és tu que vejo. É a minha imaginação. Estou velho e cansado e esta espera incessante de ti perturba-me e sinto-me alucinar. Quero arrancar daqui este silêncio sufocante, rasga-me a pele e fere-me a alma. Fazes-me tanta falta.

Acendo mais um cigarro, quero afastar este aroma a flores que invade o atelier e me destrói por dentro por não estares aqui. Rosas, adoravas rosas e, desde há muitos anos, encomendo um ramo vermelho todos os dias na florista e enfeito este lugar que é tão teu. E volto a pintar. Pinto-te a ti, pinto-me a mim, pinto-nos a nós com as cores de um crepúsculo tão nosso, meu amor.

Estranho, deves pensar. Mas, sabes? Resolvi seguir o teu sonho e comecei a pintar. Um dia, acordei a pensar em ti como todos os dias desde que partiste, saí de casa, fui à lojinha de artes que fica no fundo da rua e comprei guaches e aguarelas, pincéis, telas e cavaletes. No lugar da sala criei um atelier, nas paredes estão os quadros que fui pintando ao longo dos tempos. Um dia, se voltares, mostro-te a tela que me ofereceste, incompleta, onde estão desenhados os nossos corpos. Quase consegui terminá-la e está exposta junto à janela que dá para o jardim, perto das tuas searas. Todos os dias olho para ela, admiro-a durante horas a fio como que a imaginar o momento em que, juntos, pintaremos o cenário que lhe falta. 

Pareço um miúdo enamorado como quando me apaixonei por ti naquela tarde, há quarenta e quatro anos atrás. Lembras-te? Éramos tão jovens e eu, muito mais que tu. Será que um dia estarei cá para ver-te chegar? Se esse dia acontecer, deixo-te esta declaração de todo o meu amor por ti e que nunca chegaste a perceber, ou a acreditar. 

E agora, que me resta? Restam-me flores, aromas, sabores e pinceladas. Cada um(a) dele(a)s é um pedaço de ti e da tua juventude que creio ser eterna porque, dizem, não envelheceste. Olho para o meu auto-retrato, vejo um homem jovem e bonito. Será que também eu não envelheci para te receber, em todo o meu fulgor, no teu regresso? Não. É desvario meu, apenas desvario. E assim ficarei, perdido nesta beleza quase transcendental, completamente só e sem ti, Lauren, minha amada Lauren.

 

Teu até sempre.

 

D.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 




Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
(Des)encontro de Almas

 

Eu queria falar de almas e de encontros, aqueles que se dão por capricho do destino. Acredito que as almas se cruzam porque têm um passado em comum, vindo de outros tempos, e algo ficou por revelar ou resolver.

Por vezes dou comigo a pensar que alma gémea há só uma mas, sempre que acredito que a encontrei, perco-a de seguida e fico sem saber a razão e questiono-me se seria mesmo aquela, a tal.

Depois de tantos (des)encontros ao longo de uma existência repleta de incertezas, chego a crer que as almas gémeas se encontram no cruzar das vidas. No intervalo, aquele que existe entre a vida e a morte.

Aí sim, nesse lugar, onde o vazio se preenche do que não sei e se transforma num instante impossível de recordar, onde nada existe mas tudo acontece. É o encontro das almas que se dá, num momento imensamente puro, em que dois corações bailam na palma de duas mãos que se desconhecem e se tocam sem saber porquê. Misterioso, mas glorioso. Os corações saltam do peito e entregam-se no mais sublime acto a que não se consegue assistir, apenas se permite imaginar.

Lágrimas rubras soltam-se em forma de nuvem, no mais profundo dos silêncios. Há tanto por descobrir. Quem fui, quem vou ser, onde estive, para onde vou, com quem. É um não sei que se inventa e que se cria, onde sou tudo o que queria ter sido e nunca fui. E volto a perguntar-me porquê. Talvez porque não consegui ou porque o destino não permitiu.

É um turbilhão de emoções, vivido num sono tranquilo mas inconstante, onde as perguntas dão lugar a respostas e as mesmas se duvidam entre si numa encruzilhada interminável.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: entre vidas
a música que estou a dançar: When You're Young de 3 Doors Down
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Sábado, 17 de Setembro de 2011
O vazio dos lugares

 

Querido Duarte,

 

O meu amor adormecido despertou, o seu sono inquietou-se, o meu coração afligiu-se ao escutar, à distância, a melodia agridoce da tua voz.

Ausência, senti, uma vez mais como tantas outras nestes últimos quatro anos. Já não sei quem és, pensei, e perguntei-me que foi feito de ti porque não te reconheço. Eu, que esperei por ti todas as horas dos meus dias como se em algum momento fosses voltar. Procurei-te em todos os lugares, imaginei encontrar-te por aí, vi-te surgir nos atalhos.

Sabes? Era a minha ilusão de ver-te chegar a cada instante que me fazia acreditar que irias regressar. Mas tu não estavas. Nem aqui, nem ali, nem perto nem longe, nem em lado nenhum. Simplesmente não estavas.

Eu quis crer que era engano este meu sentimento tão imenso, quase inimaginável, cheguei a acreditar que era mentira este desejo imensurável de querer-te a meu lado, de poder respirar-te, de viver-te. Mas era verdade, era real, tão real que sentia a alma rasgar a cada pensamento de ti. E definitivamente tu não estavas, nunca estiveste. Silêncio, apenas silêncio. Perdi-te no silêncio do (re)encontro; (des)encontro.

Vêm-me à memória lembranças de nós, abraços sentidos e palavras de amor, gestos que não voltaram a repetir-se, jamais se repetirão.

...punhas as mãos na minha cintura, enrolavas-me no teu peito e dizias 'gosto de ti'. Eras tão bonito...

Fui lendo as histórias que retirei do baú de recordações, minhas e tuas, que guardei no tempo que foi nosso. Li e reli, inventei e imaginei, construí e revivi. Foram castelos de sonho que criei, desenhei-os na areia da minha praia mas levou-os o mar, o meu mar azul, em noites de tempestade. Amo-te, dizia baixinho a cada adormecer como se estivesses sempre a meu lado.

Hoje voltei a sentir o pulsar frenético do músculo que me permite respirar, foi intenso o seu disparo que abalou o seu compasso. Tarde, demasiado tarde. Vão, tudo em vão. As horas, os dias, os meses, os anos. A espera.

Quis devorar o mundo, a terra e os céus. Quis aniquilar este amor, esta paixão (sei lá) e renascer das cinzas. Deixei de saber quem sou e onde pertenço, perdi-me na turbulência dos sentidos e fugi de ti, de todos e de mim.

O sonho ruiu, o meu, de mim, de ti, de nós. Desmoronou-se, como um castelo de areia que se desfaz na maré vaza. E eu, em que me transformei? Em sombra, apenas em sombra.

Ficou vazio o teu lugar. E o meu.

 

Laura

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: vazia
a música que estou a dançar: Back to black de Amy Winehouse
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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011
Liberdade, preciso.

 

Sinto o meu pequeno mundo escorregar por entre os meus dedos cansados dos nós da revolta. Aquele mundo à parte deste em que vivemos, adúltero, hipócrita, egoísta, injusto.

Tenho na palma da mão um bilhete de regresso aos dias completos de sorrisos genuínos e abraços sentidos, verdades expostas e mentiras ausentes. Mas não consigo alcançar a força extrema de que necessito, receio não conseguir agarrá-la de mãos bem cerradas para que não me caia aos pés. Tenho medo que se escape deste chão que me aprisiona o corpo e não me deixa abandonar este cenário, mórbido e sombrio.

Sim, quero ir. Libertar-me das amarras que me prendem ao que não quero e me é imposto e me rasga a alma até sangrar.

Quero tirar os pés desta terra empoeirada, esquecer o lado de cá da vida, subir à árvore outonal mais alta do bosque mais longínquo, esperar com ela o desabrochar das folhas e enfeitar de balões coloridos os ramos primaveris. E quero sentar-me num galho, livre de deveres e preconceitos, selvagem e indomável, à espera das promessas a florir que me fizeram ficar.

 

O céu é o limite*. Eu quero uma estrela.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

* Citação de Miguel de Cervantes.

 

 


sinto-me: aprisionada à vida urbana
a música que estou a dançar: o canto dos pássaros
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
Um Verão no 'Inspira-me'

 

 

Mar, sol, areia, iodo.

Mergulhar os pés na areia molhada dos fins de tarde, refrescar a pele sob as ondas vagas da manhã, assistir ao pôr de sol à beira mar. Apanhar as conchas que vêm com as marés, sentar-me no paredão nas madrugadas e admirar o brilho do reflexo das luzes na imensidão das águas que adormecem a cantar. Absorver o iodo que me ajuda a respirar.

Um bom livro.

Folhear as páginas de um livro que me chegue ao coração. Lê-lo avidamente, entregar-me de alma à sua história. 'No teu deserto' de Miguel Sousa Tavares ou o seu 'Não te deixarei morrer, David Crockett' ou ainda 'Coração sem abrigo' de José Jorge Letria.

Inspira-te, escolhe uma obra e deleita-te com as palavras de quem escreve.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

Participação para o Especial Verão do Sapo.

 

imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/

 


sinto-me: na areia, a ler um livro
a música que estou a dançar: o cântico das gaivotas em fins de tarde
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Terça-feira, 19 de Julho de 2011
O destino das palavras

 

(Foto de minha autoria tirada em Julho de 2010 na praia de São Martinho do Porto)

 

Eu queria esconder as palavras que deixei perdidas no recanto das memórias, guardá-las onde dormem os tesouros, arrecadá-las bem no fundo das marés. Eu queria esconder cada palavra que escrevi, fugir com todas elas no meu colo, enterrá-las num pedaço deste chão, embebê-las na frescura das areias.

Eu queria arrancar todas as letras das histórias e poemas que inventei, escondê-las nos lugares onde ninguém mora, longe da procura de quem lê, longe dos encontros de quem espera, num cantinho bem perto do sol.

Eu queria rasgar cada momento, esmagar as cicatrizes do meu tempo, ajoelhar junto às baías e rezar, pedir ao céu e à terra que me trouxessem a raiz do esquecimento para plantar. Eu queria pintar a minha estrada de arco-íris, apagar o cinzento das veredas, quebrar o gelo e as sombras do vazio. 

Eu queria ser navegante e remar em alto mar, embarcar em silêncio sobre as ondas numa dança esvoaçante e intemporal.

 

 

Leonor Teixeira

 



a música que estou a dançar: Breathe Me de Sia
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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Um dia, quando...

 

Um dia, escrevi este texto. Quase três meses depois, transformei-o em poema para participar no concurso V prémio de poesia em rede.

Hoje, está exposto no corredor do meu hospital num cantinho da revista da casa de pessoal do mesmo, da qual sou sócia e colaboradora.

Quero, agora, partilhá-lo convosco.

 

 

Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem
eu quero estar lá, bem perto do infinito
para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave
que encerrou a minha história.
Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo
eu quero estar lá, nos lugares que foram meus
para gritar cada palavra que inventei
para o meu último capítulo.
Um dia, quando pararem todos os relógios
e o tempo ficar suspenso
eu quero estar lá, no vazio das épocas
para suavizar o peso dos anos apressados
e a contagem dos dias mortos.
Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas
eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo
onde se erguem as derrotas
e das ruínas se elevam vitórias.
Um dia, quando a vida se fundir no silêncio
e a morte se cruzar com o sonho
eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam
para submergir nas utopias.
Um dia, quando os lobos uivarem
para lá das cidades e um corvo vier
de onde moram os poetas já sem vida
com uma carta escondida na asa assinada por mim
significa que morri.
E nesse dia, quando eu morrer,
não quero lágrimas nem luto.
Quero que as almas que ficarem do que restou da glória
me lancem em mar alto num verso branco
lá, onde segredo nenhum é desvendado
e tudo se transforma em poesia.
E ao longe, bem distante, quero escutar
o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas
no mais sublime sinal de liberdade.

 

3 de Janeiro de 2011

 

 

Leonor Teixeira

 

 

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sinto-me:
a música que estou a dançar: Rosa Sangue de Amor Electro
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Domingo, 19 de Junho de 2011
De regresso

 

Depois de quase três meses de ausência, volto com uma necessidade extrema de ler e escrever, escrever muito.

 

Um abraço.

 

 

Leonor Teixeira

 

 




Terça-feira, 29 de Março de 2011
Palavras para uma imagem

 

 

À noite, quando a minha família descansa cá em casa e lá fora as árvores dormem e as flores se escondem do escuro, sento-me no parapeito da janela do meu quarto e fico a ver as nuvens a passar. Dançam como bolas de algodão, pintam o céu de branco com o seu bailar e vão deixando a lua despertar para iluminar as madrugadas. 

É nessas alturas em que peço às estrelas que não parem de brilhar e me deixem ficar assim, ao sabor da aragem que ajuda a esvoaçar os cortinados que aconchegam o meu quarto, para que consiga sonhar. E sonho, sonho que serei sempre criança porque se crescer fico assustada, a perda da inocência aperta-me o coração, põe-me triste e eu não quero chorar.

E penso que quero ficar sempre aqui, sentada nas almofadas mais macias que a minha mãe pôs junto à janela, para admirar docemente o que de mais belo existe nas noites.

Vejo os ramos balançarem devagarinho com o vento que vai soprando brandamente, avisto a luz do rio que corre para lá dos jardins, consigo ouvir ao longe as suas águas correrem de mansinho sobre as pedras junto ao leito. E continuo a escutar os ruídos que invadem a imensidão das sombras numa suavidade extrema. Escuto com carinho os pássaros da noite, vindos dos beirais, que passam por mim a cantar baixinho e me fazem baloiçar. 

A lua vai mudando de tempos a tempos, quando está cheia aclara as noites num esplendor, parece que me pega ao colo e me conforta, e eu falo e rio e choro de alegria. Com ela fecho os olhos e sinto o céu tão perto, quase consigo tocá-lo, e há sempre uma estrela a brilhar só para mim, fiel aos meus segredos de criança. 

Permaneço neste divagar, vagueio descalça por entre as almofadas coloridas e brinco no meu mundo de fantasia e confidências, que se completa com a imponência do que é natural, singelo e tão imensamente leal.

Sinto abrir-se a porta do meu quarto, é a minha mãe que entra para me abraçar e diz-me com doçura a beijar os meus cabelos:

- Filha, queres que te conte uma história para adormeceres?

- Não, mãezinha. Sabes? A lua disse-me que cada estrela que brilha é um sorriso que nasce, é um sinal de esperança que envia a quem olha para o céu todas as noites. Também me disse que não existe beleza maior do que o silêncio das madrugadas, mesmo aquele que é quebrado pelos sons da natureza. Significa que está viva e é imortal, como os anjos que moram no infinito.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 


sinto-me: criança
a música que estou a dançar: Somewhere Over the Rainbow de Eva Cassidy
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Quinta-feira, 24 de Março de 2011
Primavera (II)

 

Encontrei-te na outra noite, trazias contigo aquele sorriso de criança e o olhar cândido que me fez prender a ti no mais inesquecível dia de Primavera. Não mudaste, continuas com esse teu ar de miúdo traquina, não consegui resistir a dizer-te que não envelheceste nem um pouco.

Ao olhar através do verde escuro dos teus olhos, vieram-me à lembrança recordações de nós, viajei nas melhores memórias que vivemos, embalei no tempo dos abraços e das mãos que se deram na mais bela história de um amor que não se repete.

Fomos felizes no tempo que foi nosso, arrecadámos para sempre as nossas horas que fizeram parar todos os relógios e nos deixaram ser nós mesmos. Deixámos guardadas na palma da mão as gotas da água cristalina dos rios derramados a nossos pés em fins de tarde primaveris e elas não escorreram por entre os dedos, lembras-te?

Ainda sinto na pele o aroma das marés que descobrimos, as correrias contra a demora nas areias, os passeios da sede de viver que saciámos no nosso deserto que, de ermo, se fez jardim.

Na outra noite revivi e renasci, atravessei o nosso mundo uma vez mais, encontrei-me ao encontrar-te a ti, abracei a árvore que plantámos numa soalheira manhã de fins de Abril e onde ficaram escritos, numa encosta, os nossos nomes. Nenhuma outra estação os abalou, nem os anos, nem o sol e a chuva os apagou, ainda sinto os beijos que nós demos e, no momento em que te lembro, consigo vê-los baloiçar sob os ramos.

Quis repetir o que ficou para trás, abri o baú das nossas vidas e dancei contigo na urgência de te ter, como também tu me quiseste no tempo das nossas madrugadas a florir. E foi tanto o quanto te quis que deixou de haver Verão, Outono e Inverno e escutei por entre lágrimas e sorrisos de saudade, como se fosse sempre Primavera, os solos de guitarra que só tu sabes tocar.

Fui buscar os segredos que ficaram presos à raiz da nossa história, percorri as viagens que fizemos de aventura às costas, passei nas estações de comboio onde parámos de corpos a cheirar a liberdade, sustive-me nos lugares onde ficámos perdidos na nossa essência de amar.

E ondulei na pele do teu rosto, senti os teus lábios nos meus cabelos, a nossa respiração tocou-se por entre a luz e a sombra das noites e fomos nós. Recebi das tuas mãos um cravo branco, reacendeu-se o palpitar dos nossos corações vindo da mais colorida estação, outrora confidente do mais sublime dos romances, e voltei a amar-te como nunca mais amei ninguém.

E eu quis que o tempo fosse todo nosso, quis tanto que parasse ao murmúrio da nossa voz e ao eco do silêncio dos sorrisos que são só meus e teus e quis, avidamente, que o mundo se calasse ao nosso abraço no mais doce amanhecer primaveril.

 

 

(Texto escrito em 13 de Dezembro de 2010, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: a recordar um dia de Primavera
a música que estou a dançar: The Ballad de Dream Evil


Segunda-feira, 21 de Março de 2011
Dia Mundial da Poesia

 

 

Eu queria homenagear todos os poetas

Cantar-lhes em verso as mais belas palavras

Fazer dançar as estrofes que ficaram

Nos poemas mais sentidos que nós lemos...

 

 

Parabéns a todos os poetas...! Bem hajam..

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: algures do google imagens


arquivos de dança:


Quarta-feira, 16 de Março de 2011
Voz

 

 

Às vezes, oiço vozes. Vozes que se soltam na penumbra da noite, chamam por mim num gemido profundo, suspiram o meu nome. Há uma que se desprende das restantes, declara-se perante o meu olhar vago, inebriado pelas luz cálida que abraço ao seu surgir, numa madrugada que me parece não ter fim.

Embriago-me na subtileza de gestos que sussurram, de um corpo que não existe, ouço-o falar-me com uma clareza assustadora e eu pasmo-me no vazio do instante. Nego-me a mim e à voz que não consigo definir, fujo ao momento e vagueio por caminhos solitários num andar estonteante, pela perseguição do murmúrio que receio, mas anseio.

Sinto-me saltar por entre as gotas de uma chuva que cai sôfrega, parecem lâminas de um punhal que me rasgam as veias com destreza, dilatam-me os poros, fazem jorrar da minha pele o rubro que me bombeia o coração. É perturbador este pulsar vacilante que me atordoa e me faz cair no chão.

Deixo-me ficar estendida sobre o solo ardente e húmido, sinto o cheiro a terra molhada, absorvo o êxtase do aroma que me ajuda a levantar. Cambaleio descalça e seminua, prossigo na minha caminhada, agarro com firmeza cada luz que desponta nos atalhos mas a voz permanece obstinada e eu não quero, não quero, mas ela não me larga.

Desespero na procura de acordar do pesadelo mas a voz não me permite despertar, quer-me fantasma do meu próprio sono e persiste em ficar a meu lado como um espectro que se ordena a regressar, entra no meu corpo que desvanece aos poucos e se deixa levar.

Acordo desordenada por um adormecer agitado, escuto um bater de porta de um lugar que não é meu e desconheço, olho em redor e vejo uma janela aberta de par em par. Saio desnorteada do tumulto dos lençóis que adornam uma cama por fazer e olho-me através dos pedaços de um espelho quebrado que me acena.

Avisto uma sombra que não conheço e não tem rosto, pressinto a voz que se aproxima e ganha corpo, dono de duas mãos que me amparam de um desmaio e eu, no perder dos meus sentidos, pergunto-lhe quem é porque não vejo ninguém, pergunto-lhe quem sou porque não sei.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://weheartit.com


sinto-me: frente a um pedaço do espelho
a música que estou a dançar: Roads de Portishead
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Sexta-feira, 11 de Março de 2011
Esta não é uma história de amor

 

Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler.

Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras. E eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.

Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, empalidecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.

Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui, mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio suspenso se repete no seu compasso apressado.

Recordo o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.

Vivia entre palavras e pinceladas. Palavras que se soltavam ao palpitar da alma e pinceladas que deixava em cada tela, com cores, muitas cores, aquelas com que quis tingir a minha vida. E assim soltava os meus fantasmas, amava por entre as lágrimas que escorriam sobre as letras que fazia despertar, amava a cada palavra que se erguia dos trechos que ia construindo. Amava a cada misto de cores que colocava na tela e a cada nascer de cenários abstractos e paisagens, aquelas que inventava. 'Assim posso chorar porque ninguém vê, ninguém sabe quem sou', pensava eu.

Tudo eram histórias de amor, essa palavra repetida que deixava rastejar pelo papel, sempre marcada no topo de cada folha em branco, chorada em cada virar de página, gravada em cada tela pincelada. Mas o vento foi mudando de rumo a cada instante dos meus dias e, hoje e agora, eu já não quero escrever histórias de amor.

Quero continuar a escrever, a escrever sem parar todas as horas da minha existência, mas histórias onde o amor é palavra proibida e a dor não pode entrar. Quero continuar a sonhar, mas com um sorriso, por entre as gotas de tinta de uma caneta quase extinta, como que num fogo apagado pela coragem de quem arrisca o destino por cada sopro de vida, cada coração que não pode parar de bater, mas sem descrever uma única história de amor.

Quero perder-me no reino da essência das coisas, sentar-me no seio da beleza que cai em redor das cidades e parar no tempo. Deitar-me na areia de uma praia qualquer e implorar à linha do horizonte que o céu e o mar se beijem a cada por de sol. Quero adormecer submersa e, através das águas cálidas de um oceano sereno, ver o céu tornar-se azul a cada alvorada. Quero alcançar as estrelas como nas histórias que escrevi, transformar-me em pássaro, ter asas púrpura de veludo, rosto de lobo, alma cigana, coração de aço e subir à nuvem mais branca e doce.

Quero permanecer assim, como sempre fui. Rebelde, sempre rebelde, com sede de liberdade, com urgência de soltar o grito escondido que trago bem preso no ventre, mas sem chamar pelo amor nas minhas preces. Quero continuar com esta vontade de lutar e vencer ou sair vencida, mas lutar sempre e até sempre. Ser eu, sem medo de demonstrar quem fui, quem sou, o que sei e o que não sei, quem gostaria de ser. Simplesmente genuína, a transbordar de um desejo desmedido de dançar sobre as páginas do livro de histórias que escrevi, tocar o céu e beijar a lua, esconder-me no seu colo.

Tudo em mim é imensurável. O meu amor às letras, a minha rebeldia para deixar falar mais alto a minha alma, a minha força para gritar no silêncio das palavras até me doerem os dedos. É imensamente grande a minha vontade de abraçar todos os livros de poesia, aqueles que dormem na biblioteca do jardim da avenida onde, há muito tempo atrás, arrumei nas prateleiras para descansarem do desfolhar sôfrego em dias de correria. A minha sede de devorá-los com as mãos e com os olhos é tão maior, é uma ânsia que me arrepia a pele do tanto que quero ler e conhecer, do tanto que quero saber sobre os poetas que esquecem o mundo por amor às palavras e deixam no papel, cantadas em verso, as mais belas histórias nunca antes lidas.

E é imensurável, oh se é, a minha capacidade para sonhar acordada e acreditar, para depois desacreditar. É assim que sou. Mas já não quero histórias de amor.

Volto à varanda com vista sobre a cidade, quebrou-se o frio das madrugadas, observo as luzes que se acendem no ocaso e admiro a beleza que brota do esplendor que emanam depois do crepúsculo. Avisto silhuetas ao longe que passeiam, carros que circulam devagar num silêncio apagado pelo canto de uma cigarra que surge como numa noite quente.

Eu quero escrever cada momento, quero escrever sem parar. Conseguir descrever na perfeição o suspiro de um coração liberto e o brilho de um olhar que agradece o privilégio do despertar a cada manhã. Quero descrever em pormenor o momento em que o sol entra na minha vida para me abraçar, qual alma vazia que se preenche ao esquecer a palavra amar.

Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade. Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, uns num baú de memórias envoltos num laço de cordel, outros nas páginas do meu Danças em Silêncio, espero que para sempre.

Mas já não quero escrever mais histórias de (des)amor.

Cúmplices. Eu e as palavras.

 

 

(História construída a partir de textos escritos anteriormente, agora alterados e adaptados para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a escrever sem parar
a música que estou a dançar: nessun dorma
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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
Alma Gémea

 

Desperto de um passado adormecido, sinto na pele um arrepio que se aproxima de mansinho e bate na minha alma docemente. Volto a fechar os olhos, vejo-te a ti e a mim e o nosso mundo ergue-se dos anos perdidos que caíram e renasce.

Vi-te chegar no regresso dos ventos por entre as folhas espalhadas pelo chão, trazidas por um Outono prestes a morrer. Os ramos das árvores tocavam o solo, lembro-me que disseste o quanto gostavas do cheiro a terra molhada e esboçaste um sorriso genuíno, aquele que dá vida ao fim de todas as coisas. Colheste a flor de laranjeira germinada no interior da tulipa vermelha que cultivámos na nossa última Primavera e enfeitaste o meu cabelo no gesto mais ternurento que alguma vez senti.

Vindas de outras estações esvoaçaram borboletas em torno de nós, pousaram nas tuas mãos devagarinho, nas tuas mãos, sim, que tremiam de saudade e foram ao encontro do meu rosto no mais belo resgate de um beijo. Amo-te, disseste, e escreveste essa palavra repetida no tronco da árvore mais robusta do bosque, desenhaste-a na sua raiz de uma forma magistral e sussurraste ao meu ouvido numa respiração suave: Fazemos parte deste bosque e esta é a nossa árvore.

Depois da chuva despontou o sol, era de um rubro tão intenso que mudou a estação e tornou-se Verão. E ali, longe do Inverno agreste que assombrava para lá do nosso bosque, alimentámo-nos dos frutos que brotaram das palavras que declamaste sob os galhos e do silêncio do poema que me ofereceste. Num abraço aquecemo-nos nas flores que desabrocharam fora de tempo, eram mais belas do que as do mês de Março. Acácias e amores-perfeitos, camélias e cravos, crisântemos e dálias, girassóis e orquídeas. Lembras-te?

E assim imortalizámos o nosso amor, transformámo-nos em pássaro, apenas num, levámos nas asas a semente de tudo o que foi nosso, a tulipa vermelha e a sua flor de laranjeira, e voámos em liberdade através dos tempos.

 

 

(Texto escrito em 18 de Dezembro de 2010, agora adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 



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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
Post-Scriptum

 

...

Mais ninguém conseguirá preencher o lugar que te pertence. Adoro-te a ti.
Tua até sempre.

Laura

 

P.S. Fechei, há algumas horas, o envelope onde ficou guardada esta carta que escrevi em Dezembro de há dois anos. Quis pô-la na caixa de correio mas evitei, talvez porque te reencontrei ontem e senti que não são apenas aquelas as palavras que queria deixar-te. Algo me deteve porque há mais, muito mais, e é tanto o que quero dizer-te que a caneta treme na minha mão, por entre os dedos que nunca ousaram tocar-te diante das multidões.

Queria escrever-te mais uma carta, uma outra que não esta, mas prefiro acrescentar em post-scriptum o que o meu coração dita e como dança a minha alma mas, desta vez, sem falar de corações destroçados, de sentimentos desencontrados. Queria escrever-te uma carta, sim, mas diferente, construída de palavras doces e coloridas, sem mágoas nem lágrimas.

Não quero contos sobre confissões do que senti por ti, dos gritos silenciosos de um amor que durou demasiado tempo, tanto que não sei quanto. Não quero histórias que ficaram entre o partir e o ficar, sem princípio, meio e fim.

Sabes? Gostaria de falar-te de outras coisas. De sonhos, de desejos, de fantasias que foram preenchendo as horas dos meus dias.

Gostaria de falar-te da beleza que ficou por descobrir, dos passeios que ficaram por concretizar, do tanto que tivemos por inventar, das coisas mais simples da vida que deixámos por partilhar.

Queria dizer-te, até, que poderíamos ter alcançado o inatingível. Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível? O nosso imaginário consegue chegar até onde a nossa alma nos levar. E tudo se torna tão bonito.

Posso contar-te que, juntos, já caminhámos à beira mar numa praia deserta, contemplámos o por de sol num fim de tarde de verão sentados na areia. Mergulhámos, lado a lado, numa onda branca e conseguimos tocar os mais belos corais no fundo do mar. Depois de admirarmos um mundo de mil cores onde conseguimos absorver o irrespirável, nadámos encostados um ao outro até à superfície dos oceanos. Para lá das águas cristalinas, sentimos o sol de um dia acabado de nascer que encheu de luz o nosso o rosto.

Lembras-te da nossa dança na praia? Aquela que ficou por inventar? Conseguimos ondular os nossos corpos e enlaçámo-nos numa agitação lenta dos sentidos. Em redor de nós, a melodia do mar cruzou-se com o cântico das gaivotas e, antes de partirmos, desenhámos o nosso nome na areia. Sabes? Ainda sinto o sabor a sal que ficou na nossa pele.

Juntos, percorremos estradas limpas e frescas, caminhámos de mãos dadas devagar por entre montes e vales, subimos colinas, saltámos nas pradarias. No final, descansámos abraçados debaixo de uma árvore no bosque secreto que guardou os nossos beijos. Consegues sentir o aroma das flores campestres? Tenho uma guardada nas páginas do livro que escrevi para ti.

Gostaria de falar-te do quanto acreditei que tudo poderia ser possível. Da esperança de ver-te chegar com uma rosa vermelha na mão e um brilho no olhar. Dos teus braços abertos para me levarem até ao mais alto dos rochedos e, de lá, admirar contigo a mais sublime das paisagens. Das semanas a viver-te por completo, dos meses de partilha, dos anos a teu lado com sorrisos.

Queria pegar nas palavras que te escrevi e declamar-tas num poema eterno. Queria recitar-te, num cenário de neve a cair numa noite de Dezembro, o que a minha alma viveu por nós.

Gostaria finalmente de confessar-te neste meu post-scriptum que, ao reencontrar-te, senti confiança. Era isso que queria dizer-te, mas perdi-me na fantasia das palavras e deixei-me levar pelo sonho.

Fica a última parte, a essencial e que pretendo fazer chegar até ti num manifesto impetuoso, pela injustiça angustiante do que nos foi destinado. É a declaração da coragem que sinto emergir do mais fundo do meu ser e me rasga as entranhas. Coragem para gastar a minha voz num grito e exclamar, de coração aberto, que renasceu a minha capacidade de lutar. Lutar, mas desta vez, por mim. Porque agora, mais do que nunca, quero recuperar a minha liberdade. A de ser feliz.

Concedes-me esse direito?

 

Laura

 

 

(Texto escrito em 9 de Dezembro de 2009, agora alterado e adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: a escrever um post scriptum
a música que estou a dançar: banda sonora do filme 'Notebook'


Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
Uma bruxa diferente

 

 

Querida bruxinha,

 

Sou uma menina pobre, sem pai nem mãe, e não acredito no pai natal. Cresci com a vizinhança que me adoptou, quando perdi aqueles que me puseram no mundo, mas com a certeza de que um dia alguma arte mágica nos ofereceria dias melhores.

Estou a escrever-te esta carta com um lápis partido e por afiar, num guardanapo de papel amarrotado que encontrei sobre a mesa da cozinha, no meio dos pratos vazios que esperam pelo pão da manhã e dos copos com água do rio para cada saciar de sede.

Posso dizer-te, no entanto, que sou feliz quando brinco com as outras crianças do bairro. Jogamos à apanhada, à cabra-cega e cantamos numa roda viva de mãos dadas. Acredito, também, que neste nosso mundo de carência o amor está sempre presente e a amizade é sentimento que não morre.

Um dia falaram-me de ti. Disseram-me que vives no meio do arvoredo de um bosque onde todos têm medo de entrar, numa casinha feita de canas de madeira com móveis de verga. Contaram-me que tens um caldeirão de barro a um canto da sala e, junto à janela que te inspira nas noites de luar, guardas uma vassoura, um chapéu de bico preto, um baú com poções mágicas e uma abóbora. Sabes? Disseram-me que sabes voar.

Desde então, criei uma fantasia sobre ti e acredito que, depois do bater das doze badaladas no relógio da torre da igreja e quando a aldeia dorme, te entregas aos teus feitiços mais secretos. Depois, pões dentro de um saco de pano molhos de desejos, aqueles que vais conceder, saltas para a tua vassoura até levantares voo, tocas o céu com os dedos a sorrir e espalhas sobre os telhados dos bairros sem abrigo pozinhos de bondade misturada com pedaços de sonhos para realizar.

Queria pedir-te dois desejos. O primeiro, que me tragas um livro, apenas um, sobre histórias de encantar. Pode ser? Gostava tanto de entrar no universo dos contos coloridos, onde há castelos e florestas verde esperança, príncipes que salvam belas adormecidas e em que há sempre um final feliz. O outro desejo, que é demasiado grande, é pedir-te que me leves a ver o mar. Dizem que é azul e imenso e que chora a cantar nas madrugadas. Sei que tem ondas de espuma branca que abraçam a areia num vaivém sem fim. É verdade que o mar tem sabor a sal?

Dizem os mal-aventurados que as bruxas são más e os seus truques perversos mas, desde que ouvi o teu nome pela primeira vez, senti que as tuas artes de feiticeira são para conceder os desejos das crianças que não sabem o valor das coisas belas. Tenho uma amiguinha que partilha deste meu segredo e, tal como eu, acredita em ti.

Preferia chamar-te fada, condiz mais contigo porque falam que, por detrás dessa capa preta e debaixo do chapéu que te disfarçam, está um corpo com pele de seda, branco e frágil, e um rosto formoso como o de uma princesa. Gostava tanto de te conhecer um dia, entrar no teu mundo de magia e saltitar na tua vassoura pelo bosque.

Fada-bruxa, posso pedir-te só mais um desejo? Ensinas-me a voar?

 

Da menina que não acredita no pai natal mas crê em ti, que és uma bruxa diferente.

 

 

(História escrita para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://www.melhorpapeldeparede.com/


sinto-me: a pedir um desejo
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011
Anjo imortal

 

 

Eu queria escrever sobre ti, tu que és imortal mas não existes e que conheço como ninguém.

Caminhas comigo de mãos dadas, beijas-me o rosto a cada mágoa e guardas-me no colo como um anjo. Tu, que vieste de outros tempos, de outras vidas, saboreaste todos os estados de alma e ressuscitaste com honra em cada era.

És tu quem me dá força para prosseguir pelas colinas, aquelas em que tropeço tantas vezes e me fazem ressurgir com um sorriso.

Tens a cabeça no lugar do coração, não sentes, não sofres, não padeces. A prudência é o teu guia, ages sem qualquer impulso que te arraste para a terra das angústias que se choram, onde se mata a sede no derramar das lágrimas.

Não sabes a razão de uma queda no abismo, esse lugar tenebroso sem saída. Moras na amplitude de um intervalo, é como a vibração celestial das pradarias sem muros nem pontes, sem portas e sem janelas, aquelas que se trancam para sempre.

Não consigo já viver sem ti, dormes no meu ombro a cada noite fria, o teu sono é como a aragem quente que sopra nos desertos. Tu, que despes a chuva quando cai e a vestes de sol, aquele que inebria o meu leito e me alimenta.

Seduzes-me na tua magia suprema, entrego-me a ti como uma cigana se rende à liberdade, saímos para a rua sob um manto branco e descalços vagueamos no silêncio das estrelas.

Não me fujas, que não sei viver sem ti, meu amparo constante que me eleva na utopia dos dias cinzentos. Leva-me contigo rumo ao arco-íris, faz de mim imortal com um beijo teu.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

(A imagem aqui apresentada foi encontrada algures no google e sem autor referenciado. Agradeço a quem a criou que, caso a encontre por aqui, me avise para  lhe dar o devido crédito ou, se assim desejar, retirá-la-ei de imediato.)



sinto-me: entre o céu e a pradaria
a música que estou a dançar: o canto de uma ave
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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
Uma página em branco

 

Foto de: Sunhi Mang

 

As notas de música estavam lá, escritas em pautas brancas, mas não se viam. Tudo lhe parecia oco e, ao mesmo tempo, tão cheio de cenários escurecidos pelo fim dos tempos.

As paredes eram de vidro e as prateleiras de cristal onde centenas de livros dormiam, ordenados no pó do esquecimento. A um canto do salão, um piano negro de cauda onde mãos sem dono tocavam para uma plateia de lugares vazios. Sobre as teclas, véus sem corpo faziam soar a música num murmúrio distante como que numa marcha fúnebre e, de pé, vultos sem contornos aplaudiam.

Os rostos não tinham expressão, eram insípidos, os olhos não viam e as bocas não falavam. Apenas gestos indecifráveis, dedos que tocavam os intervalos e passos que quebravam o silêncio, desfolhando páginas e páginas empalidecidas de livros adormecidos, tantos, sem letras nem palavras.

Os vultos iam saindo da sala sem tecto num alinhamento compassado e riam e sorriam em tom débil, de máscara posta, como que num baile carnavalesco.

Os acordes compostos ecoavam tilintantes e, ao fundo do salão, vislumbrava-se uma silhueta, apenas uma, envolta em folhas de papel em branco que iam caindo em marcha pelo chão, soltas pelas asas de um condor que esvoaçava na imensidão de um céu que não havia.

A silhueta procurou por todos os lados algo com que pudesse escrever mas não encontrou, queria deixar na memória dos que restassem tudo a que acabava de assistir. E quis tanto preencher as páginas vazias e construir uma história ou talvez um livro que, subitamente, ao tocar numa das folhas com avidez, sentiu um ardor que lhe rompia os dedos e viu que era tinta permanente.

E assim formou letras, desenhou palavras e não parou de escrever até se lhe ferirem as mãos. E continuou a esculpir cada imagem, cada gesto, cada detalhe, cada momento vivido naquela passagem desconhecida, mas tão soberbamente amena.

O tempo passou e ela ficou sentada no mesmo lugar, junto ao mesmo piano e à plateia de cadeiras vazias, perto dos livros esquecidos e envolvida em páginas sem enredo, onde palavras vãs se misturavam com imagens por decifrar.

E estava só, os vultos não se viam, os véus não existiam, não havia rostos nem mãos. Mas as pautas de música permaneciam sobre as teclas do piano, continuavam sem notas escritas, e os acordes voltaram a tocar soando de uma forma mágica.

Sentiu-se levitar e transportou-se para a esfera aberta que amparava o tecto rasgado do salão e o adornava, entrou na alma mais perdida que encontrou e vagueou até alcançar um ventre em gestação.

Lembra-se que acordou amarrada a um cordão umbilical que acabou por ser quebrado. Lembra-se que chorou como choram os que nascem e, até ao despertar das lágrimas dos que ainda nada sentem, entrou num mundo desigual. Tentou recordar a outra vida, um passado intransponível que ainda lhe pertencia, mas não conseguiu. As imagens surgiam-lhe turvas e obscuras, tudo era vago e sombrio.

Afinal, quem fora ela para além de nada ou de ninguém? Cinza, restos de outras almas, fragmentos de uma vida que ninguém viu acontecer?

Nunca chegou a saber se esteve lá ou se existiu, naquele lugar sinistro e misterioso, apenas lhe veio à memória uma passagem ténue e enigmática. O que mais lhe transparecia era o levitar, aquele que sentiu, como num cenário de feitiços onde o corpo se sustém no espaço e nunca cai.

E tudo não passou de uma página em branco pincelada de negro aveludado, onde marcou as palavras e as imagens que compôs e se apagaram num tempo que nunca chegou a existir, num lugar sem morada assinalada.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://www.chiharu-shiota.com/


sinto-me: a tocar piano
a música que estou a dançar: Requiem de Mozart


Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011
I'm happy today

 

 

Hoje, disseste que me amavas.

Peguei no carro, percorri as ruas da cidade que me viu nascer numa condução serena, parei na avenida com cheiro a lilases e absorvi lentamente o seu perfume. Sentei-me num banco de jardim à beira rio, contemplei os patos que nadavam ao sabor das águas cintilantes pelos raios de um sol matinal e sorri com o encanto do momento.

Eu queria tecer palavras, as mais belas, mas não consegui soltar o meu imaginário que vagueou, frágil, pelo campo de flores por desabrochar. Os castanheiros balançaram nos passeios ao ver-me pular de alegria, acho que sentiram o pulsar desordenado dos meus sentidos e o bater frenético do meu coração.

Descalcei-me, mergulhei os pés na espuma fria que corria nos degraus junto à pérgula, baloicei nas sensações do que te sinto e refresquei a alma, enquanto nenúfares brancos e encarnados dançavam no riacho à mercê da corrente.

Depois, disse-te que esperava por ti.

 

 

Leonor Teixeira

 


imagem retirada de: http://weheartit.com/


sinto-me: a sorrir
a música que estou a dançar: Come Away With Me de Norah Jones
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Sábado, 29 de Janeiro de 2011
Palavras para uma imagem

 

 

Ainda hoje gosto de mergulhar nos lençóis onde, naquele fim de tarde, os nossos corpos se enlaçaram. Ainda sinto as tuas mãos percorrerem o meu corpo na mais perfeita carícia, sinto que estás aqui a tocar nos meus cabelos. O teu olhar deixa-me assim, disseste. Perdi-me no murmúrio da tua voz, entreguei o meu corpo ao teu, envolvi-me em ti.

A noite veio de mansinho, lá fora a chuva caía sem perdão, escutámos o seu chorar que escorria pela janela do quarto e nos pedia para entrar. E o vento ria sem parar, soltava gargalhadas que vinham de norte e sul, nem as nuvens o conseguiram deter.

Pediste-me para acender uma vela com aroma a sândalo e âmbar. Eu disse-te que o amarelo é a cor dos sorrisos e peguei numa para atear as nossas almas. O fósforo dançava na minha mão trémula enquanto acendia uma das tantas velas que poisei no chão de faia.

Os lençóis de cetim cheiravam a baunilha, os nossos corpos renderam-se à essência doce que pairava dentro das quatro paredes que iam aquecendo devagar a cada sentido nosso que se revelava, por entre a suavidade da luz que nos rodeava.

O cenário era de um romance singular, sobre a cama bailavam pétalas de rosa, soltámos o que de mais místico havia em nós e na nossa entrega pedimos à vida que acabasse ali, onde mora o princípio do fim.

Tenho medo, disseste. Medo que o mundo pare de girar, medo de nunca mais te ver, de não voltar a tocar a tua pele.
Não tenhas, respondi e segurei o teu rosto com ternura nas minhas duas mãos. Um dia a minha mãe escreveu uma história que se chamava ‘juntos na morte’. Que importa a vida, se não podemos dar as mãos lá fora?

Olhámos para o céu através da vidraça, não havia lua e as estrelas tinham-se escondido nas nuvens mas vimos velas, muitas velas. Estavam por todo o lado, espalhadas pela estrada, nos passeios, nas ruas e nas vielas. Eram todas iguais, tingidas da cor que seca o sol.

Nem a chuva, nem o vento conseguiram apagar o seu ardor, a cidade ficou pincelada de amarelo dourado e as pessoas pararam no esplendor do momento. E tu acabaste por partir, em busca do calor dos atalhos.

Caiu serena a madrugada, senti-te do outro lado da cidade. Tocaram três badaladas no relógio da torre da igreja, acendi um cigarro na chama de uma vela esquecida e escrevi para ti. O vento deixou de soprar nas suas gargalhadas, um cão ladrou ao longe e uma cigarra chorou comigo pelo adeus que não me disseste. O meu imaginário vagueou pela varanda com vista sobre a cidade que dormia tranquila pelo fulgor das velas a arder.

Voltei para o vazio dos lençóis, ficaram com o teu cheiro marcado. Elevei-me num sono encantado onde inventei a fantasia que me embalou num cenário de cetim. Estás aqui, disse a mim mesma como que a chamar por ti, e uma concha formou-se no centro de uma cama por fazer. Fomos nós.
A chuva voltou a chorar em agonia, as suas lágrimas apagaram as velas, quase todas, apenas uma permaneceu resplandecente. Seria presságio de ti, de mim ou seria apenas um sinal teu?

Regressei à varanda envolvida num lençol, pétalas de rosa iam caindo por entre as velas espalhadas pelo chão. O aroma a sândalo e âmbar ficou marcado no quarto onde estivemos, penetrado em tudo o que tocámos. A vista sobre a cidade encandeou-me o rosto, o meu corpo oscilou pela perda do que não sei.

Adormeci na essência do que ficou de ti, mas estremeci ao acordar com a alvorada. Saí para a rua num susto e parei junto a uma vela ainda a arder, a única, de todas as que se formaram num manto cintilante que enfeitou os caminhos durante a noite. Ouvi vozes e aproximei-me das gentes que gemiam de aflição. Disseram-me que tinhas morrido.

Corri desnorteada num lamento até onde a chuva e o vento me levaram, não sei a que lugar, parei e gritei:
Há um Outono a morar na minha alma. Reacendam a vela que se extinguiu, para que volte a Primavera.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: aquecida pla chama de uma vela
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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011
P.S. I miss you

 

Às vezes, lembro-me de ti. Minto. Não só às vezes, mas muitas vezes, tantas, quase sempre.

Lembro, se me lembro. Passavas todas as noites à porta de casa da minha mãe, embrulhado num sobretudo preto que contrastava com a palidez da tua pele e fazia sobressair uns lábios sorridentes do teu rosto meio coberto por uns caracóis negros.

Conhecemo-nos numa daquelas noites frias de Outono, no lugar onde costumávamos ir beber café e lá estavas tu, vestido de preto no teu caminhar sereno como serena era a tua figura. Cruzámo-nos por entre os passos que íamos dando lentamente, o nosso olhar tocou-se com embaraço e sorrimos numa ingenuidade aparente, revelando os nossos nomes um ao outro.

Víamo-nos sempre, casualmente, no mesmo sítio e nas mesmas noites de fim de semana, por volta da mesma hora. Sem encontro marcado, lá estava eu no bar e tu aparecias alegre, sempre alegre, pelo meio das gentes que riam e conversavam descontraidamente.

E surgia o abraço. Era inevitável. Sempre o abraço, o mesmo de todas as vezes, longo e apertado por entre beijos na testa, muitos beijos. Nos teus braços, sentia-me tão pequenina e confortada.

Lembro-me de nos perdermos nas palavras até ao amanhecer, sentados lado a lado nas escadas do beco junto à entrada do bar, unidos por gestos de cumplicidade. Partilhámos momentos, sentimentos, falámos das nossas perdas e das nossas conquistas, rimos e chorámos juntos.

Uma noite, levaste-me a casa da tua mãe. Era tarde, fomos pelo quintal, abriste a porta das traseiras e quando entrei fechei os olhos com força, absorvi o aroma que rastejava pelos móveis e pelas paredes e exclamei num sorriso: cheira à casa da minha mãe.

Sentados na tua sala, frente a frente, debatemos o mistério da vida e a nossa crença no destino. Entrámos no mundo das adivinhas, discutimos  existências anteriores, contaste-me as experiências que viveste com o teu baralho de tarô, aquele que um dia acabaste por me oferecer. Tenho-o guardado no baú das minhas melhores memórias, permanece dentro da caixinha de cartão reciclado. Sabes? A caixinha tem o mesmo cheiro daquela noite em que a trouxeste escondida na mão, atrás das costas, para me dares como prenda de aniversário. E o bilhete, o que me deixaste, permanece de lacre aberto sobre as cartas que um dia foram tuas.

Lembras-te da história dos cigarros no teu cinzeiro e do segredo em seu redor? Nunca poderia contar aqui essa história, é tão nossa que ninguém pode saber, ninguém pode escutar.

Quase nos perdemos na palavra amar mas venceu a amizade que conseguimos solidificar e, como me disseste um dia, nunca poderíamos ser amantes porque o nosso encontro aconteceu em época incerta. Se tivesse sido um pouco antes ou um tanto depois, teríamos ficado juntos para sempre. Acredito que sim, se acredito.

Depois da nossa despedida na festa do vale, em que assistimos ao nascer do sol e dançámos até o sono chegar, não voltámos a ver-nos até hoje. Partiste para a cidade do amor e nunca mais voltaste. Tornámos a falar após alguns anos, depois de termos perdido o contacto por infortúnio do destino.

Mas as nossas conversas à distancia ajudaram-nos a recuperar os anos que ficaram para trás. Esquecemo-nos dos relógios, chegámos a falar horas a fio, mais pareciam confissões de dois adolescentes que mantêm a cumplicidade, extrema e inabalável. Houve alturas em que parecíamos dois verdadeiros poetas, as palavras saíam-nos em verso e as declarações de saudade transformavam-se num autêntico poema. As tuas confissões alojaram-se na minha alma e ergueram-se num eco que, de quando em vez, vai e vem: se passei noites contigo foi porque te escolhi, contigo saboreio as palavras e os sentidos e dá-me vontade de guardar-te no colo.

Encontramo-nos na praia?, dizíamos a cada despedida como se o destino nos levasse a outra vida e o nosso adormecer fosse um ponto de partida para um encontro apenas meu e teu. Como tu próprio pediste, entre a areia e o mar.

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: com saudade do meu maior amigo
a música que estou a dançar: Ahccai to my father de Marie Boine
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011
'Não é o sol que faz a sombra'

 

 

Silêncio. Quero silêncio, diz a minha mente ensurdecida pelo sopro arrogante do vento que entra, num tumulto, pelas frestas da minha casa quase vazia e sem cor.

Mas o meu silêncio é astuto e intocável, envolve a minha solidão como uma bruma, veste-me de cinza e purifica de uma forma enganadora o meu corpo enegrecido pelas multidões.

E eu quero viver depressa, mas o meu silêncio assusta-me. É oco como o sossego que me acolhe, melancólico como a inércia dos meus gestos, funesto como os meus fantasmas mais recônditos, vago como a minha apatia pelos amanheceres no asfalto.

Eu quero silêncio, sim, mas tenho medo. Medo da sombra deste silêncio sedutor que atraiçoa as horas das minhas noites, ganha voz a cada segundo dos meus minutos e me segreda num beijo que tento evitar:

- Escreve sempre que o teu coração palpitar e a tua alma ditar, mas em silêncio. Tacteia as palavras no papel e deixa-te ficar aqui, onde a beleza do nada te sustém. Porque a sombra de que falas sou eu e chamam-me cegueira. A cegueira que se alimenta dos teus passos que dançam na procura da música que deixou simplesmente de tocar. É esta a melodia do silêncio, a do teu silêncio.

E o outro eu, o que não fala mas ouve e vê, geme num sufoco que ecoa pela casa e a sombra cega pára, atenta, ao meu lamento que se solta:

- Mas eu quero o silêncio das areias. É brando e cristalino, salpica-me a pele e a alma com a frescura das marés nos fins de tarde.

 

 

(Texto construído para a Fábrica de Histórias à volta do provérbio: Não é o sol que faz a sombra)

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://fotos.sapo.pt/


sinto-me: em silêncio
a música que estou a dançar: I'm Kissin You de Des`ree


Domingo, 9 de Janeiro de 2011
Palavras para uma imagem

 

 

 

Meu querido velho do mar,

 

No último fim de tarde sombrio de Setembro, quando morreste, saí de casa como sempre fiz todos os dias da minha vida mas, daquela vez, de corpo inerte. Carregava no rosto a marca dos anos e a angústia de uma espera incessante de ti, tu, que já não podias voltar.

Sentei-me junto ao cais da praia que sempre me ofereceu as melhores recordações da nossa juventude inacabada, que se perdeu nos tempos pelo amadurecer das idades.

O nevoeiro aproximou-se denso e frio como sempre fora e tanto me confortava a cada entrada das noites. A meu lado sentou-se a saudade, minha eterna confidente do passado, que trazia consigo aquela dor nostálgica que me acompanhou ao longo das décadas e se transformou, no momento em que partiste, numa aflição assustadora por nunca mais te poder ver.

Sabes? Era àquele lugar que eu ia sempre à mesma hora e onde me despedi de ti no mais triste entardecer a que se assistiu, disfarçado pela beleza da paisagem, ao lançar às águas frias do teu mar a última carta de amor que me deixaste. Nela ficaram escritas as tuas palavras derradeiras, agarradas à ausência tão própria de um homem dos oceanos, e onde dizias que não podias ser meu porque tu eras do mar e ele pertencia-te a ti, preenchia os teus minutos e mais nada nem ninguém poderia ocupar o seu lugar.

Lembro-me de ouvir falar de ti quando já não estavas, meu velho do mar. Chamavam-te o aventureiro solitário das marés, do tanto que desafiaste tempestades ao comando do navio que foi só teu. Era muito mais do que isso, era o teu lar, o teu recanto, a tua vida. Foi a tua verdadeira morada, tão e apenas tua. A pedra preciosa que amavas sem qualquer condição.

Recordo-me dos pescadores da aldeia contarem as tuas histórias sem se cansarem, ao redor de uma mesa da taberna da areia. Eram histórias plenas de aventura, falavam dos teus regressos de cada viagem, quando atracavas no porto e os abraçavas com uma força extrema pela alegria de voltar. E eu ouvia os contos que eram só teus, sabia-os de cor porque estava sempre lá, escondida entre os rochedos, à espera de ver-te chegar.

Eras um guerreiro, sobrevivias a qualquer intempérie e apesar de seres um homem marcado pelas estações, pelo sol ardente dos verões e o frio cortante dos invernos, eras dono de uma alma nobre, fiel ao teu mar e nada te detinha.

Sei que deixaste escritos pedaços das viagens em que embarcaste, descrições comoventes das tuas paragens por lugares distantes e onde ficaram retratados os teus sorrisos de cada vez que ancoravas num país qualquer. Foste guardando de uma forma memorável a força das amizades que construíste em terra firme e os adeus marcados pelo soltar das amarras.

Contam que eras solitário pela perda de um grande amor e pela lealdade que juraras ao teu navio, companheiro dos teus dias e afago das tuas noites. Seria eu o grande amor que deixaste para trás para te dedicares ao encanto e assombro dos oceanos? Sinto que sim, ou que talvez.

Nunca ninguém soube o teu verdadeiro nome, nunca o revelaste, e naquela noite em que uma águia sobrevoou circundante as dunas para lá da aldeia da praia, o teu navio naufragou na mudança das marés e o teu corpo nunca foi encontrado. Dizem que ficou junto aos mais belos corais, perto de um tesouro sem dono, no fundo do mar.

E eu quis soltar as amarras que me prenderam ao cais que te pertenceu e que ainda hoje é teu. E desejei adormecer sobre o navio onde moraste, lá, nas águas que navegaste por entre as brumas e em que, tantas vezes, mergulhaste na tentativa de respirar o impossível e onde agora descansas.

Os fins de tarde ficaram para sempre, tardes submersas onde jaz o teu corpo, pelas âncoras que agarraste e levaste contigo bem presas à tua alma de aventureiro solitário das marés.

 

Tua até sempre

 

M.

(a velha do cais)

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem cedida para a Fábrica de Histórias por: Jerónimo Afonso


sinto-me: sentada no cais
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
Um dia, quando...

 

Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem eu quero estar lá, bem perto do infinito, para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave que encerrou a minha história.

Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo eu quero estar lá, nos lugares que foram meus, para gritar cada palavra que inventei para o meu último capítulo.

Um dia, quando pararem todos os relógios e o tempo ficar suspenso eu quero estar lá, no vazio das épocas, para suavizar o peso dos anos apressados e a contagem dos dias mortos.

Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo, onde se erguem as derrotas e das ruínas se elevam vitórias.

Um dia, quando a vida se fundir no silêncio e a morte se cruzar com o sonho eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam, para submergir nas utopias.

Um dia, quando os lobos uivarem para lá das cidades e um corvo vier, de onde moram os poetas já sem vida, com uma carta escondida na asa assinada por mim, significa que morri.

E nesse dia, quando eu morrer, não quero lágrimas nem luto.

Quero que as almas que ficarem do que restou da glória me lancem em mar alto num verso branco, lá, onde segredo nenhum é desvendado e tudo se transforma em poesia.

E ao longe, bem distante, quero escutar o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas, no mais sublime sinal de liberdade.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a escrever um capítulo
a música que estou a dançar: Samson de Regina Spektor
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Sábado, 18 de Dezembro de 2010
O nosso bosque

 

 

Desperto de um passado adormecido, sinto na pele um arrepio que se aproxima de mansinho e bate na minha alma docemente. Volto a fechar os olhos, vejo-te a ti e a mim e o nosso mundo ergue-se dos anos perdidos que caíram e renasce.

Vi-te chegar no regresso dos ventos por entre as folhas espalhadas pelo chão, trazidas por um Outono prestes a morrer. Os ramos das árvores tocavam o solo, lembro-me que disseste o quanto gostavas do cheiro a terra molhada e esboçaste um sorriso genuíno, aquele que dá vida ao fim de todas as coisas. Colheste a flor de laranjeira germinada no interior da tulipa vermelha que cultivámos na nossa última Primavera e enfeitaste o meu cabelo no gesto mais ternurento que alguma vez senti.

Vindas de outras estações esvoaçaram borboletas em torno de nós, pousaram nas tuas mãos devagarinho, nas tuas mãos, sim, que tremiam de saudade e foram ao encontro do meu rosto no mais belo resgate de um beijo. Amo-te, disseste, e escreveste essa palavra repetida no tronco da árvore mais robusta do bosque, desenhaste-a na sua raiz de uma forma magistral e sussurraste ao meu ouvido numa respiração suave: Fazemos parte deste bosque e esta é a nossa árvore.

Depois da chuva despontou o sol, era de um rubro tão intenso que mudou a estação e tornou-se Verão. E ali, longe do Inverno agreste que assombrava para lá do nosso bosque, alimentámo-nos dos frutos que brotaram das palavras que declamaste sob os galhos e do silêncio do poema que me ofereceste. Num abraço aquecemo-nos nas flores que desabrocharam fora de tempo, eram mais belas do que as do mês de Março. Acácias e amores-perfeitos, camélias e cravos, crisântemos e dálias, girassóis e orquídeas. Lembras-te?

E assim imortalizámos o nosso amor, transformámo-nos em pássaro, apenas num, levámos nas asas a semente de tudo o que foi nosso, a tulipa e a sua flor de laranjeira, e voámos em liberdade através dos tempos.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

Imagem retirada de: http://photobucket.com/


sinto-me: no bosque debaixo do sol
a música que estou a dançar: Ashes and Wine de A Fine Frenzy
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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010
Viagem de memórias

 

 

Encontrei-te na outra noite, trazias contigo aquele sorriso de criança e o olhar cândido que me fez prender a ti um dia. Não mudaste, continuas com esse teu ar de miúdo traquina, não consegui resistir a dizer-te que não envelheceste nem um pouco.

Ao olhar através do verde escuro dos teus olhos, vieram-me à lembrança recordações de nós, viajei nas melhores memórias que vivemos, embalei no tempo dos abraços e das mãos que se deram na mais bela história de um amor que não se repete.

Fomos felizes no tempo que foi nosso, arrecadámos para sempre as nossas horas que fizeram parar todos os relógios e nos deixaram ser nós mesmos. Deixámos guardadas na palma da mão as gotas da água cristalina dos rios derramados a nossos pés e elas não escorreram por entre os dedos, lembras-te? Ainda sinto na pele o aroma das marés que descobrimos, as correrias contra a demora nas areias, os passeios da sede de viver que saciámos no nosso deserto que, de ermo, se fez jardim.

Na outra noite revivi e renasci, atravessei o nosso mundo uma vez mais, encontrei-me ao encontrar-te a ti, abracei a árvore que plantámos e onde ficaram escritos os nossos nomes. Nem os anos, nem o sol e a chuva os abalou, ainda sinto os beijos que nós demos e, no momento em que te lembro, consigo vê-los baloiçar sob os ramos.

Quis repetir o que ficou para trás, abri o baú das nossas vidas e dancei contigo na urgência de te ter e foi tanto o quanto te quis que escutei, por entre lágrimas e sorrisos de saudade, os solos de guitarra que só tu sabes tocar. Fui buscar os segredos que ficaram presos à raiz da nossa história, percorri as viagens que fizemos de aventura às costas, passei nas estações de comboio onde parámos de corpos a cheirar a liberdade, sustive-me nos lugares onde ficámos perdidos na nossa essência de amar.

E ondulei na pele do teu rosto, senti os teus lábios nos meus cabelos, a nossa respiração tocou-se por entre a luz e a sombra das noites e fomos nós. E voltei a amar-te como nunca mais amei ninguém.

E eu quis que o tempo fosse todo nosso, quis tanto que parasse ao murmúrio da nossa voz e ao eco do silêncio dos sorrisos que são só meus e teus e quis, avidamente, que o mundo se calasse ao nosso abraço.

 

Ao J. com carinho

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://vi.sualize.us/


sinto-me: a pensar no J.
a música que estou a dançar: Almost Lover de A Fine Frenzy
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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
Destaque - Eu e o Sapinho

 

Destacada? Eu? Mas será que vi bem? Sem dúvida, a melhor prenda de Natal.

Iupiiiiiiiiii!!!!

 

 

Quero agradecer do fundo da minha alma à equipa dos blogs do sapo por este destaque que me deixou tão, mas tão feliz. O meu agradecimento profundo vai, também, para quem sugeriu o Danças em Silêncio.

Há três anos criei este blog e quando o Danças fez dois anos, escrevi um texto que agora vos deixo porque o sentimento é o mesmo senão maior.

Não estou aqui para dar os parabéns a mim mesma, mas para agradecer as amizades construídas neste mundo blogosférico. Estar aqui tem sido deveras gratificante.

Foi muito mais do que criar centena e meia de posts e ter mais de mil comentários. Foi o conhecer pessoas novas que, sem a existência de presença física, se envolveram num sentimento grandioso.

No início, tudo era novo e desconhecido. Não havia visitas, não se conhecia ninguém mas ia-se espreitando um ou outro espaço e, com o passar do tempo, foram chegando autores de mundos fantásticos. Entrámos nos cantinhos uns dos outros, devagarinho e sem abusar, fomo-nos conhecendo através das palavras e criando laços de ternura invulgares. Hoje podemos dizer que há aqueles que fazem já parte da nossa vida.

É com muita honra que escrevo no sapo, aquele batráquio que nos deixa entrar e nos dá liberdade para escrever, criar. Por diversas vezes mudei o rosto ao blog, alterei os templates, as cores, os componentes, os títulos e as descrições. Dei um nome a mim própria, alterei o pseudónimo uma ou outra vez e, finalmente, decidi-me por ficar mesmo assim. A Ametista do Danças em Silêncio.

Neste nosso mundo tenho conhecido blogs indescritíveis, formas de escrita envolventes e outros tipos de arte simplesmente fenomenais. Aqui cruzam-se emoções, misturam-se lágrimas, risos e sorrisos. Partilham-se alegrias, tristezas, abrem-se corações e unem-se almas. Por aqui também existem verdadeiros construtores de sonhos, onde podemos escrever até onde a nossa imaginação nos levar. Aqui publicam-se livros, concretizam-se sonhos.

Um dia este cantinho chamou-se Aqui Sou Feliz. Acreditem que o fui e hoje posso dizer que continuo a sê-lo. E não me canso de repetir que sou mesmo feliz aqui convosco!

Muito obrigada, Sapinho

Muito obrigada a quem me lê.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada da internet


sinto-me: tão feliz pelo destaque
a música que estou a dançar: An American Tail Somewhere Out There
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Domingo, 5 de Dezembro de 2010
Fazes-me falta

 

 

Amo-te acima de todas as coisas, mas sinto-me amarrada a um abandono extremo que me rompe as entranhas. A minha alma está despedaçada, quebrou-se ao perder-te à chegada, tu que surgiste no meu caminho sem o destino avisar, tu que me fizeste acreditar que vale a pena esperar pela entrega no seu todo e vivê-la soberbamente porque, disseste-me tu, temos todo o tempo do mundo. Lembras-te? Tu, sim tu, que estás aí do outro lado da ponte que nos separa, tu que me ensinaste a crer que existe uma estrada colorida que nos espera, tu que te repetes no adjectivo linda e te declaras por entre as letras daquele verbo que conjugas na perfeição, me toca na sua profundez e me acelera o coração. Aquela palavra, adoro-te, que é a mais bela de todas as palavras e que eleva todos os sentidos.

E agora estou aqui, perdida na minha embriaguez de viver-te por completo, de tocar a tua pele, de ter-te a meu lado e ficar assim, suspensa num mundo que não é o meu e aqui permaneço, viva para ti, no lugar que é teu mas sem rumo à vista, eu que tanto te choro. E questiono-me, pergunto aos mestres da sorte e do infortúnio, donos dos mistérios da vida a razão deste lamento que me corta o ar e, ao mesmo tempo, me obriga a respirar a todo o custo porque és tu quem quero, és tu que me preenches ou, já nem sei, se não serás a razão deste vazio que tomou posse de mim, da angústia que bateu à minha porta e entrou de rompante sem pedir licença.

O cinzeiro transborda de pontas dos cigarros que já fumei, as garrafas de vinho estão vazias, quem dera que fosse por um brinde entre nós mas que não aconteceu. Afogo-me na tentativa de afastar de mim este engano mas não consigo esquecer que existes, não consigo esquecer o teu nome. E dói-me, dói-me sentir-te por perto e não poder abraçar-te, é uma dor quase insuportável, é como morrer devagar com o remédio mesmo a meu lado e não conseguir alcançá-lo mas não há mais nada que possa minorar este mal, não há nada a fazer. Nada.

Arrancaram as asas da minha libertação, sinto-me prisioneira de um amor morto à nascença, vagueio sem rumo e consigo avistar um túnel mas não tem luz, é escuro como breu, não alcanço mais nada para além de uma lacuna e não há saída. É como estar perdida num labirinto, despida de amor próprio, completamente nua e conseguir ouvir a tua voz ecoar sobre o meu corpo frágil e a rasgar-me ainda mais a alma ferida.

Fazes-me falta. E eu quero gritar e não posso, preciso de gritar e não consigo.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://photobucket.com/


sinto-me: vazia
a música que estou a dançar: Loneliness de Blank & Jones


Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010
Eu e as palavras

 

 

Estou aqui, sentada frente a um écran que outrora não fazia parte da minha vida e onde agora ficam expressas as minhas divagações, para quem as quiser ler. Lembro-me que escrevia em folhas de papel timbrado ou nas sebentas da escola, umas vezes com lápis outras com esferográfica. Podia ser azul, preta ou encarnada, o importante era que escrevesse e assim nasciam as letras e eu escrevia, escrevia sem parar, o meu pensamento flutuava em cada lugar que estivesse, tudo eram palavras que irrompiam e iam ficando desenhadas em rascunhos.

Ainda hoje guardo todas as folhas em que deixei escritos devaneios e desabafos, estão hoje amarelecidas como as antiguidades que se guardam num sótão qualquer, amarelecidas como o tempo vai deixando as nossas vidas.

Acendo um cigarro, eu não queria fumar aqui mas o frio está cortante na minha varanda com vista sobre a cidade e dentro de casa há um aconchego que me prende, mesmo que amarelecidas fiquem as paredes deste recanto onde a música não pára de tocar e o relógio de parede se repete no seu compasso apressado.

Longe vai o tempo em que escrevia até amanhecer, adormecia quando a vida começava lá fora e a agitação das ruas era a minha tranquilidade. Refugiava-me no conforto dos lençóis e ia acordando, ora com a chuva a cair nas pedras da calçada ora com raios de um sol caloroso, enquanto as palavras surgiam subitamente no meu pensamento e me levantava para deixá-las escritas, não fosse eu esquecê-las durante o sono, sentir a minha imaginação em branco ao acordar.

Fui deixando escritos, ao longo dos tempos, sentimentos de alma, esboços de uma vida, aqueles que se choram e deixam saudade. Histórias, memórias, momentos, sonhos que foram ficando guardados, uns na gaveta envoltos num laço de cordel outros nas páginas do meu Danças em Silêncio, espero que para sempre.

Cúmplices. Eu e as palavras.

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: a pensar nos rascunhos
a música que estou a dançar: Thinking Of You de Katy Perry
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
Danças comigo?

 

 

Há em mim uma sede insaciável de dançar a música mais doce e enlaçar o meu corpo no teu num silêncio que suspira. Na rua, ao sol, ao vento, à chuva mas dançar contigo e escrever a palavra amar em todos os lugares, marcar no chão que piso a nossa sombra.

Quero deixar espalhadas por aí as lágrimas de um coração que transborda de paixão, aquela que rasga o peito como um punhal e faz libertar os sentidos mais profundos.

Quero gravar no meu sangue o teu nome como uma tatuagem eterna. Perder-me na tua essência e respirar o teu ar como num último sopro de vida.

Danças comigo, amor da minha vida presente?

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://photobucket.com/


sinto-me: a dançar contigo
a música que estou a dançar: When I'm Down de Chris Cornell
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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
Não sei quem és

 

A vida ironiza o meu fado com instintos de malvadez, obriga-me a beber desse veneno que me ofereces, mas eu afasto-me e recuso beber uma gota sequer, iria matar-me lentamente e eu não quero morrer devagar.

Não quero fazer parte da mesma história, aquela que me fez bater no fundo mas que me ajudou a subir à tona. Pareces trazer reencarnado em ti aquele que deixou no meu caminho um ponto e vírgula, pendurado num espinho escondido na rosa que um dia me deu.

Sinto-te fantasma de um passado que me dilacera a alma, consigo escutar ao longe gargalhadas que mais me parecem ser um verdadeiro acto de bruxaria.

Não, eu não vou permitir que me rasgues as entranhas, não vou deixar-me manipular por esse olhar enganador.

Quem és tu para entrares assim vindo do nada? Não sei quem és nem de onde vens, mais me pareces um qualquer estranho incoerente, contradizes-te através de atitudes impulsivas que tentas encobrir, consigo sentir uma certa obsessão que se mistura com um receio gigantesco e indecifrável na adoração que me confessas. Tento entender mas não consigo, juro que não consigo.

És astuto, envolves-me na tua teia subtilmente e eu sigo-te como um fantoche que manobras e aprisionas, como que num disfarce que vou desmascarando e fujo a tempo.

Porquê eu? Eu, que acredito nas palavras e em sorrisos. Sabes? Há sorrisos que se inventam mas o olhar não engana. Não sei o seu verdadeiro significado, ainda hoje me pergunto o que quer dizer esse olhar que umas vezes se entrega ao meu por completo, outras se distancia sorrateiramente por entre actos de cobardia.

Maldito mau presságio que me persegue, chego a crer que ele existe por bondade para que consiga detectar, enquanto é tempo, o que poderia desgraçar a minha vida.

Quero gritar mas não consigo, o grito está contido algures na minha alma que chora compulsivamente, mas as lágrimas não brotam do meu olhar que reflecte mais uma ilusão perdida, total desengano meu.

Afasto-me simplesmente, passo as noites em claro a pensar onde é que errei, pergunto ao destino a razão das incertezas, não ouço respostas mas consigo imaginar os risos sarcásticos de quem amei.

 

 

Texto fictício

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: a inventar e sai isto
a música que estou a dançar: Love The Way You Lie de Eminem feat Rihanna
arquivos de dança:


Domingo, 10 de Outubro de 2010
Desvarios de Verão

 

Ele surgiu despido de ausências, vestido de promessas, transbordando desejos incompletos. Veio, envolto em palavras por dizer, a sua pele cheirava a sal, partículas de areia cintilavam no seu corpo ardente como raios de um sol que nunca existira. Deixava transparecer a fantasia das mensagens guardadas para lá dos sonhos, onde tudo era surreal.

Naufragou no repouso absoluto do peito dela, ávido do seu encosto, beberam-se para lá de um crepúsculo estonteante, onde tudo se transforma e nada morre.

Foram para lá das marés, onde a terra cheira a chuva acabada de cair e nas estrelas está escrita a palavra amar. Os seus nomes ficaram gravados na lua que os acolheu, num céu onde o sono não mora e a tristeza é palavra proibida.

Risos e gargalhadas envolveram os momentos que agarraram com medo de que acabassem, mas o tempo parou no instante de um beijo demorado, talvez eterno, as horas deixaram de existir e a terra não voltou a girar.

- Queres voar comigo? Voar para lá do vento, entre o sonho e o que ficou por inventar? Queres descobrir comigo as cores do arco íris e pintar as nossas vidas de aguarela? - perguntou Duarte em palavras repetidas, proferidas por Laura num tempo distante.

Entregaram-se à mais tórrida das paixões, um misto de rubro e púrpura pintou o céu que encobria os dois corpos transpirados de saudade. Ao unirem-se no mais belo cenário de entrega, Duarte transformou-se em pássaro, Laura em sereia, respiraram-se por entre voos e mergulhos num cântico de uma beleza majestosa.

Um manto branco feito de cetim e madrepérola caiu de uma nuvem, cobriu o mar e amparou as ondas agitadas. Deitaram-se sobre ele, deixaram-se levar ao sabor da maresia, conseguiam escutar o bater frenético dos seus corações. Era urgente viverem-se por completo, era urgente amar perdidamente sem qualquer condição.

- Preciso de ti, deixa-me respirar-te, és a minha poesia... - Duarte fechou os olhos, quis adormecer naquele sonho, instante irrepetível do destino, permanecer pássaro até sempre. Quis agarrar aquele feitiço com a força que trazia bem presa às entranhas, aconchegar-se no colo da sereia que encontrara, construir um ninho.

Laura, porém, continha em si fragmentos de uma ilusão passada, pedaços de uma espera inacabada. Não conseguiu aninhá-lo, ondulou para lá dos oceanos, esqueceu-se que tinha coração, encontrou-se ao renascer sem alma numa aldeia de corais e não regressou.

Duarte chorou ao abandono num gemido ininterrupto, o seu lamento estremeceu as nuvens, as estrelas caíram, o sol colidiu com a lua, o céu desabou e o mar invadiu a terra.

Quebrou-se o feitiço. Um pássaro não chora a perda de uma sereia, não aquela que outrora fora ora menina inocente ora mulher sem rumo, que esperou por ele uma vida inteira sem sentido e que acabava, agora, de partir.

As quatro estações deixaram de existir. Ficou apenas a sombra de um último Verão, perdido no tempo, onde o amor e a paixão se juntaram na mais sublime das paisagens, para se perderem de seguida e fazerem desvairar o mundo.

Não ficou ninguém para contar, apenas um corvo esvoaçou durante séculos sobre o que restou da terra, rindo até à eternidade através do seu canto negro, quase poético.

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: feliz por voltar à Fábrica
a música que estou a dançar: Closer to the edge de 30 Seconds To Mars


Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
Fins de tarde na praia

 

13 de Julho de 2010. 20,36h.

O sol desponta depois de uma tarde com nuvens de cores mórbidas que pintaram o céu e se reflectiram na areia, escondendo um azul quente e melancólico.

Admiro a paisagem da janela da casa de praia, avisto um barco que passa em mar alto. Consigo velejá-lo , absorvo a baía que fica para trás. Bebo o iodo espalhado na praia, bebo-o até à exaustão.

 

23 de Agosto de 2010. 17,30h.

Esta noite, adormeci ao som das ondas que tocavam a areia suavemente. Era doce o seu bater, iam e vinham, iam e voltavam a vir e eu senti o sono chegar devagarinho, tão devagarinho que quase senti tocar o fundo do mar. E ondulei, ondulei na sua profundez, senti-me com guelras e consegui respirar. Para lá da superfície, a terra tornou-se longínqua.

Não tenho vontade de regressar. Quero continuar neste sono tranquilo que me toca a alma na mais perfeita candura.

 

26 de Agosto de 2010. 16,45h.

Há algo que me sustém para além da brisa do mar. O vento vindo de sul traz consigo gotas de chuva tão delicadas que me permitem ficar aqui, sentada na areia que vai aquecendo à medida que o dia vai deixando um rasto de frescura. O barco volta a passar e eu sinto-me navegar.

 

29 de Agosto de 2010. 19,20h.

O rio de saudade que desagua no mar corre-me nas veias e prende-me aqui, a esta concha que é parte de mim. Não quero ir, quero ficar.

Deixo para trás um sonho antigo e regresso às origens. E o meu sangue chora, mas vai conseguindo estancar.

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: com saudade do mar
a música que estou a dançar: Come Away With Me de Norah Jones
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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
Maria das Quimeras

 

Para a minha querida Quimera, os meus parabéns!

Um bocadinho tarde, mas ainda neste dia 27 de Setembro...

 

 

Sê feliz, amiga de minh'alma...

 

@doro.te

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: criança como a Quimera
a música que estou a dançar: Feliz Aniversário
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010
Vazio de Nós...?

 

13 de Julho de 2010. 18,55h.

 

Perco-te nas horas, há um vazio que me deixas. Partes num silêncio absoluto, deixas-me na ausência que me trazes para ficar.

O tempo ensina-me a cada hora dos meus dias que não há nada para nós para além do vazio que me confias.

Fiquemos, então, assim. Não há espaço para nós dois no mesmo mundo. Só a distância nos é permitida, tão perto que estamos um do outro, tão longe que nos encontramos, afinal.

Invento-te neste mistério que nos impõe um muro intransponível que sinto, oh se sinto, jamais será derrubado.

Quero decifrar este enleio de dúvidas que me cegam.

O tempo não nos pertence, não a nós. Fica o que restou, utopia incontornável, viagem sem regresso que se dá, turbilhão de emoções em mim contidas.

Eu sou o sol e a lua que se beijam, o céu e o mar que se tocam num fim de tarde pintado de mil cores. Tu és, não sei, o cinzento dos dias que me cercam, a chuva a cair numa noite fria.

A minha alma está vazia. Mas continuo a amar-te. Sim, amo-te perdidamente, não tenho medo de o confessar. Consegues ouvir-me?

 

4 de Agosto de 2010. 01,45h.

 

Hoje, ouvi a tua voz. Tive vontade de ir ao teu encontro, abraçar-te, pedir-te para ficar.

Queres voar comigo? Voar para lá do vento, entre o sonho e o que ficou por inventar? Queres descobrir comigo as cores do arco íris e pintar as nossas vidas de aguarela?

Ficaria tudo tão suave, as nossas almas sentiriam a liberdade que nos foi proibida.

E aí, no mundo por nós construído, tão belo quanto a natureza que nos envolve, poderíamos atingir a plenitude de uma felicidade impossível de alcançar.

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: com saudade
a música que estou a dançar: Invincible de Muse
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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Suave Recordação

 

 

Ainda hoje gosto de mergulhar nos lençóis onde, naquela noite, os nossos corpos se enlaçaram. Ainda hoje sinto as tuas mãos percorrerem o meu corpo na mais perfeita carícia, sinto que estás aqui a tocares nos meus cabelos. 'O teu olhar deixa-me assim...' disseste. Perdi-me no murmúrio da tua voz, entreguei o meu corpo ao teu, envolvi-me em ti.

Cai serena a madrugada, sinto-te do outro lado da cidade. Tocam três badaladas no relógio da torre da igreja, acendo um cigarro e escrevo para ti. O vento não sopra, há um cão que ladra ao longe e uma cigarra que persiste em acompanhar a minha solidão com o seu canto incessante. O meu imaginário vagueia pela varanda com vista sobre a cidade que dorme tranquila.

Volto para o vazio dos lençóis, têm o teu cheiro marcado. Elevo-me num sono encantado onde invento a fantasia que me embala num cenário de cetim. Estás aqui, sinto-o. Há uma concha que se cria no centro de uma cama por fazer. Somos nós.

Regresso à varanda envolvida num lençol, pétalas de rosa vão caindo no chão. A vista sobre a cidade ilumina-me o rosto, o meu corpo estremece pela perda do que não sei.

Há um outono a morar na minha alma.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

imagem retirada de: http://photobucket.com/


sinto-me: sentada numa lua que me acolhe
a música que estou a dançar: Heroes & Saints de Nicolaj Grandjean
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Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
Varanda com vista sobre a cidade

 

Queria ter escrito sem parar, todas as horas da minha existência num passado recente. O vento entrou na minha vida e mudou de rumo a cada instante dos meus dias.

Eu queria. Queria ter sonhado por entre as gotas de tinta de uma caneta quase extinta, como que num fogo apagado pela coragem de quem arrisca o destino por cada sopro de vida, cada coração que não pode parar de bater.

Queria ter ficado. Queria ter parado no tempo e implorado à linha do horizonte que o céu e o mar se beijassem a cada por de sol. Queria ter adormecido, submersa, e através das águas cálidas de um oceano sereno ver o céu tornar-se azul a cada alvorada.

Queria ter alcançado as estrelas como outrora, transformar-me em pássaro, ter asas púrpura de veludo, rosto de lobo, alma cigana, coração de aço e tocar a nuvem mais branca e doce.

Queria ter permanecido assim, como sempre fora. Rebelde, sempre rebelde, com sede de liberdade, com urgência de soltar o grito escondido que trago bem preso no ventre. Com vontade de lutar e vencer ou sair vencida, mas lutar sempre e até sempre. Ser eu, sem medo de demonstrar quem fui, quem sou, o que sei e o que não sei, quem gostaria de ser. Simplesmente genuína e cheia daquela vontade desmedida de viver em passos de dança até voar.

Tudo em mim é imensurável. O meu amor, o meu saudosismo, a minha rebeldia, a minha força, a minha vontade de abraçar. A minha capacidade para sonhar acordada e acreditar, para depois desacreditar. É assim que sou.

E lá, na varanda com vista sobre a cidade, observei as luzes que se acenderam no ocaso, admirei a beleza que delas nasceu ao formarem-se depois do crepúsculo. Avistei silhuetas ao longe que passeavam, carros que circulavam devagar num silêncio quebrado pelo canto de uma cigarra que surgiu numa noite quente.

Eu queria ter escrito cada momento. Queria ter escrito sem parar. Conseguir descrever na perfeição a dor de um coração rasgado e, ao mesmo tempo, o brilho de um olhar que agradece o privilégio do despertar a cada manhã. Queria descrever em pormenor o momento em que o sol entrou para me abraçar, qual alma vazia que se preencheu por instantes numa noite qualquer, igual a tantas outras.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

Obrigada a quem faz parte da minha vida e a quem compreendeu a minha ausência.


sinto-me: ametista
a música que estou a dançar: Ponto de Luz de Sara Tavares
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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
De volta... quase!

Saudades... tantas!

De escrever, de vos ler, de partilhar emoções, de ficar aqui.

Mas estou quase de volta!

Só preciso de mais um tempinho, aquele que se foi esgotando ao longo destes dois últimos meses. A minha ausência foi por motivos de força maior.

Prometo responder aos comentários que tão carinhosamente me deixaram.

Estiveram sempre na minha alma...

 

Um abraço... de coração...

 

 

Leonor Teixeira

 



sinto-me: com vontade de escrever
a música que estou a dançar: Voltar de Rodrigo Leão
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Segunda-feira, 8 de Março de 2010
Palavras para uma imagem

 

 

Por onde andas, Duarte? Deixei de te ver, já não lembro o teu rosto, não reconheço o teu cheiro, desconheço quem és. Apenas recordo a tua voz.

Deixaste-me aqui, do lado de cá do espelho da vida, sozinha num mundo que já não me pertence, sem cor, sem brilho. Porque partiste? Pedi-te para ficares e tu insististe em ir e não voltar. Como irei continuar sem ti? A dor é demasiado grande, recuso-me a viver assim.

Deixas-me ir para junto de ti? Há um lugar a teu lado guardado para mim, não há? Eu sei que esse lugar existe, sinto que é meu, necessito urgentemente de alcançá-lo. Dá-me um sinal. Preciso de ti, mesmo que longe da vida que me foi oferecida e que agora renego.

Sabes? Esperei-te durante largos anos, sonhei-te como nunca imaginei ser possível, vivi-te como ninguém. Depois de conquistar-te a vida levou-te de mim, arrancou-me de ti, quebrou o que construí de nós.

Para lá do espelho há flores, amor da minha vida? Imagino um lugar sereno, um campo verde onde anjos flutuam de branco. Seremos nós? Acredito que sim. Não vivemos a mais bela história de amor? Não foi a nossa alma rasgada por um amor impossível que sobreviveu a um mundo hostil e que conseguimos ultrapassar em segredo? Em segredo, verdade. Lembras-te? Talvez por isso o destino não nos tenha proporcionado a libertação da nossa paixão.

Não respondes. Continuas aí, em silêncio, frente a um espelho prestes a quebrar, um espelho inventado para nós e que tem sido uma barreira que teimou em ficar. Vejo-te do lado de lá, de costas viradas para ti próprio, longe de mim, perto de um mundo que não conheço. E eu continuo a amar-te, impossível substituir-te. Ainda espero por ti, aguardo a cada minuto dos meus dias que tu surjas, vindo do outro lado do espelho, de braços abertos.

Tenho de confessar-te. Sinto necessidade de fazê-lo. Gritar ao mundo que foste a razão do livro que escrevi, das telas que pintei, das músicas que dancei, do lugar onde fiquei. E senti-te perto, tão perto, mas perdi-te na altura em que acreditei que a nossa história  poderia ser eterna. Acabei por encerrar a minha vida como se fosse uma folha de um diário e não virei a página.

O meu amor por ti está declarado no livro que escrevi para ti e tu não leste. Está aí, junto ao espelho que ergueste, entre quem és e quem gostarias de ter sido.

 

Tua até sempre.

 

Laura

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: do outro lado do espelho


Domingo, 21 de Fevereiro de 2010
Longe do Mundo

 

Encontrava-me na praia da velha vila onde passara tantos verões da minha adolescência. O areal era extenso, do seu lado esquerdo uma pequena baía cruzava-se com o mar. Ao longe, alguém deslizava numa prancha sobre as ondas que se iam tornando maiores, debaixo de um sol que se punha devagar no horizonte. O cenário era deslumbrante, sublime, talvez o mais belo fim de dia a que tinha tido o privilégio de assistir.

A praia estava deserta, apenas eu sentada na areia fresca que ia envolvendo na palma da mão. Deixei-me ficar até o frio apertar e a noite cerrar. Olhei para o céu, vi a lua esconder-se por detrás de nuvens negras que passavam apressadas. Era o início de mais uma noite rigorosa de Inverno. As luzes das ruas típicas da vila começavam a ganhar vida, reflectiam-se num mar que se tornara gélido como a noite.

Fui até ao bar da praia, sentei-me junto à janela à média luz, pedi um martini e acendi um cigarro. Não havia ninguém para além do dono do bar, um velho pescador que vivia numa pequena cabana a alguns metros dali. Havia música a tocar, um misto de blues e jazz que faziam lembrar-me os filmes dos anos quarenta e cinquenta. Olhei pela janela, vislumbrei ao longe um clarão súbito que se cruzou entre o céu e o mar. Senti-me deslumbrada por aquela luz intensa que brilhou por instantes e imediatamente se desvaneceu. Fez-se silêncio e tudo escureceu. Apagaram-se as luzes, a música deixou de tocar, a velha vila ficou sombria. Lá fora escutava-se a canção do mar, ouvia-se o uivo do vento.

Saí do bar, guiei-me pela luz do isqueiro que trazia sempre comigo e, na penumbra da noite, dirigi-me à casa de férias de outrora, agora desabitada. Ficava do outro lado da vila, perto do porto de abrigo. Ao chegar, entrei pelo quintal abandonado onde se encontrava o velho barracão, local onde não voltara a entrar desde há muitos anos. Parei a olhá-lo, senti o coração bater forte e recuei. Fiquei assim durante breves instantes, talvez fosse melhor partir e não voltar. Não queria recordar o passado, seria demasiado doloroso.

A noite permanecia escura, uma chuva fria começava a cair fortemente, gatos miavam nos telhados, mas não havia ninguém. Imaginei ouvir vozes vizinhas por perto, passos vagarosos na calçada, mas as ruas estavam desertas. Apenas eu me encontrava na vila no meio de uma noite tenebrosa. Por momentos, senti medo. O meu telemóvel deixara de funcionar, as casas em redor estavam fechadas, os cafés encerrados. Mas medo porquê, medo de quê? Ali crescera em cada Verão do passado, ali morava a minha alma, pedaços de mim guardados num tempo que não mais se repetira. Naquele dia estava só, sim, mas era assim que me encontrava, era assim que queria ficar.

Levei a mão ao bolso do casaco que me aquecia o corpo, toquei na chave da porta de entrada e fui até ao alpendre. Tive dificuldade em abri-la, era intenso o escuro da noite. O isqueiro que me guiara também já não funcionava, não havia luz para iluminar o espaço, estava tudo tão sombrio. Depois de algum tempo, consegui abrir a porta e fui tacteando paredes, tocando nos móveis cobertos por lençóis brancos. Lembrei-me que havia sempre fósforos na cozinha, a um canto da mesa de refeições. Ao encontrar uma caixa, acendi um e percorri a casa em busca da chave do barracão.

Subi a escadaria que dava ao primeiro andar ao mesmo tempo que ia recordando momentos. A cada degrau que subia, sorrisos e gargalhadas vinham-me à memória. Tantos verões passados ali, em família, na mais perfeita harmonia.

Encontrei a chave do barracão no meu quarto antigo. Estava dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Agarrei-a e apertei-a bem dentro da minha mão, senti-me queimar na força da chama de um fósforo que chegava ao fim. Acendi outro e procurei velas. Sabia que estavam lá, espalhadas pelo quarto. Desde miúda que gostava do atear de uma vela, pela luz que deixava, pelo cheiro que emanava.

Desci as escadas apressada, fiquei com medo que o mundo acabasse, saí à rua e corri até ao velho barracão. Não havia lua, permanecia escondida num céu sem cor, a chuva e o frio eram cortantes e a escuridão maior. Mas eu sabia de cor o caminho que, antigamente, percorrera vezes sem fim. Perdi o medo, atravessei o quintal e abri o portão com sofreguidão. Senti a minha mão tremer enquanto a chave rodava na fechadura mas, finalmente, abriu-se o portão.

A sala era ampla e vazia. Duas largas colunas apoiavam um tecto amarelecido pelo tempo, decorado agora por uma imensidão de teias de aranha. Cada parede era coberta por um espelho à excepção de uma, composta por uma vidraça que a atravessava de uma ponta à outra. Acendi uma vela e pousei-a no chão revestido a soalho, totalmente empoeirado. Vi a minha imagem sombria reflectida no espelho embaciado pelo tempo. O meu cabelo estava molhado, o meu corpo encharcado da chuva que caía lá fora sem cessar. Já não era a mesma, não voltaria a ser. Olhei para um dos cantos da sala. Encostado à parede, um rádio gravador coberto de pó adormecera naquele lugar escuro, longe do mundo. Aproximei-me dele, toquei-lhe suavemente, queria ligá-lo mas não havia luz. Carreguei no botão do play na esperança que ainda trabalhasse e a música começou a tocar. As pilhas do velho gravador funcionavam como que por magia.

 

Fame

I'm gonna live forever
I'm gonna learn how to fly... high...

 

Estaria a sonhar? Senti-me incrédula perante tamanho mistério. Talvez estivesse, sim, no meio de um sonho. Dei, então, início a alguns passos de dança lentos, imaginei-me menina outra vez, eterna bailarina.

'Dança, sonho meu, onde foi que te perdi?', perguntei-me baixinho e uma lágrima caiu-me pelo rosto cansado, com marcas de um passado jamais esquecido, onde a dança tinha sido a minha companheira de viagem.

Naquela noite escura, a chuva inundou as ruas do centro da vila, o mar escondeu o areal.  Eu permaneci no velho barracão, longe da vida lá fora, perto do mundo que inventei só para mim. Extinguiu-se a última vela, a música continuou a tocar e eu deixei-me ficar, entregue a uma dança singular, na escuridão de uma noite chuvosa e gélida de Inverno que se prolongou até ao romper do dia.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: na praia


Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
30 de Fevereiro

 

Num qualquer dia trinta de Fevereiro cruzei-me comigo mesma por entre caminhos assombrados. Em cada um deles uma imagem, um ruído. Percorri espaços estreitos vezes sem fim. Em cada esquina braços estendidos tentavam alcançar-me, vozes em uníssono faziam soar o meu nome. Risos sarcásticos ouviam-se ao longe, gargalhadas repetidas por entre muros erguidos do vazio. Gritos doentios ecoavam sem parar, rostos alucinados cruzavam-se à pressa por entre a escuridão. Surgiam fantasmas de todos os lados, silhuetas disformes chamavam por mim.

Perdi o rumo, esqueci a minha identidade. Estradas sem saída, direcções cruzadas por entre o desconhecido. Perdi-me do mundo, entrei em delírio e atravessei o labirinto repetidamente, sem parar. Uma sombra vinda do nada acenou-me num adeus incessante. Não sei quem era, não sei o seu nome.

Parei, exausta. Respirei ofegante e estendi-me no chão frio num completo desvario. Adormeci num sono agitado. Passaram as horas, os dias, os meses. Os anos ficaram suspensos num passado ignorado. Memórias em branco perdidas aqui e ali, num lugar qualquer que não existia.

O meu corpo esguio manteve-se inerte à espera de luz e silêncio. E o tempo correu veloz.

Muito tempo depois, tanto que não sei quanto, num qualquer dia trinta de Fevereiro, um pedaço de sol despontou por entre as nuvens que ofuscavam o labirinto. O dia era o mesmo, a noite também, passagens de uma história vivida num sono demorado onde o surreal tinha tido o papel principal.

Nesse mesmo dia, a trinta de Fevereiro, encontrei a saída e descobri um mundo novo.

O sol punha-se num horizonte onde as cores se misturavam de uma forma mágica. A chuva caía, gotas de púrpura cruzavam-se com raios de um sol cor de rosa. O céu atravessava o mar por entre um fogo generoso e assim nascia a noite, quente como eu sempre gostara. Conseguia vislumbrar uma lua azul e as estrelas dançavam no céu pintadas de arco íris. Senti o aroma do iodo que se espalhava no ar por entre um vento que começava a ganhar rosto. Tinha o olhar do silêncio e o sorriso de uma nuvem. Afundei os pés numa areia que passou de dourada a branca como a neve e mergulhei numa liberdade que nunca sentira. Consegui tocar-lhe, tinha cor, era rubra como a mais tórrida das paixões.

Senti-me levitar e voei, dancei sobre um mar transparente no qual me estendi. Vi-me num cenário de ondas de cristal frente a uma plateia de corais onde os fantasmas do meu sono se transformavam em sonhadores como eu, ganhavam asas e voavam até à ilha que inventámos juntos. Os gritos doentios de outrora davam lugar a cânticos suaves nunca antes escutados, os risos sarcásticos eram agora sorrisos ternos, tão ternos que me pareciam algo transcendental. As silhuetas disformes surgiam perfeitas e frágeis, vestidas da cor da paz.

Naquele dia trinta de Fevereiro, elevei-me na fantasia de uma dança eterna na praia. E pedi ao calendário da vida:

'Não acabes, dia trinta de Fevereiro, não acabes e deixa-te ficar comigo, deixa-me ficar contigo, deixa-me ficar aqui, deixa-me ficar assim.'

E o tempo parou num abraço entre o pesadelo e o sonho, tão reais como um dia qualquer que não existe, nascido do mais belo feitiço a que pude assistir.

 

 

(Parte do texto foi escrito em 13 de Agosto de 2009 e agora adaptado para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
Orgulhosamente Operária

 

 

1 de Setembro de 2009. 1.º Aniversário da Fábrica de Histórias.

 

Vejo-me a passear por entre divagações e encontro uma fábrica de histórias pousada numa nuvem branca. A seu lado uma outra nuvem, de mil cores, onde um grupo de operários partilha os seus sentidos de mãos dadas.

A porta está aberta. Entro na nuvem, estendem-me a mão e juntos criamos uma dança especial. É o baile das palavras que nos unem, por entre uma aliança de almas que se tocam num gesto encantador.

Consigo ouvir as nossas vozes que sussurram por entre a música que toca sem parar e as palavras ecoam em nosso redor, as histórias pairam no ar.

Há pedaços de prosa, pedaços de poesia guardados num cantinho de nós e a inspiração que nos espera sorri-nos através de uma nuvem coberta pelo imaginário que nos envolve.

Há escritas floridas enviadas e recebidas com carinho. São brancas como a paz, azuis como o mar, verdes como a esperança, de mil cores como os nossos sorrisos.

Ganhamos asas, voamos num céu que nos ampara e pousamos na praia que nos espera.

Damos as mãos sentados na areia dourada e emergem as nossas histórias que cantam com as gaivotas que sobrevoam a beira mar. É um cântico que nasce de um abraço construído de mil contos de encantar. As palavras soam num verso inigualável, enchem-nos a alma, trazem consigo um pouco de mar.

As ondas vêm até nós para nos beijar e eleva-se o nosso sentir. Mergulhamos nas suas águas como sereias a ondular nas profundezas de um oceano. Há uma fantasia que se aproxima de mansinho e chega até nós.

E desta forma tão sublime cresce a fábrica de histórias que encontrei, que abriu as portas de par em par e, tão delicadamente, me deixou entrar. A fábrica é azul, parece o sol a reflectir-se no mar.

As mãos estão dadas, a dança é perfeita, a arte eterna. Estamos na linha do horizonte.

Há cenário mais belo do que este?

Somos nós...

 

 

É uma honra fazer parte do grupo de operários da Fábrica de Histórias criada paralelamente  à Autores Editora, verdadeiros construtores de sonhos, e cujo projecto nasceu há um ano. Estão de parabéns!

Muito obrigada por existirem, muito obrigada por fazerem parte da minha vida.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias em 6 de Setembro de 2009)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: orgulhosa
arquivos de dança:


Domingo, 31 de Janeiro de 2010
Palavras para uma imagem

 

 

Ele e ela dirigiam-se a casa depois de uma agradável ida ao cinema. O filme a que tinham assistido tinha-lhes transmitido um estado de alma intenso. Caminhavam em silêncio e, ao aproximarem-se do semáforo que cruzava a rua principal da cidade com uma outra qualquer, ele deu-lhe a mão e puxou-a para junto de si. Ficaram tão perto um do outro que os seus lábios quase se tocaram. Naquele instante, o sinal estava vermelho e ele convidou-a para dançar.

Sem música?, perguntou ela em tom de timidez. Eu canto para ti, respondeu ele e, num gesto lento, enrolou-a de encontro ao peito conduzindo-a até à estrada. A rua estava deserta, o silêncio era de ouro. Observaram o semáforo passar a verde enquanto davam início a uma dança na estrada. Ele cantarolava qualquer música lenta enquanto os seus corpos se enlaçavam na mais perfeita harmonia. O sinal mudou de cor, passou de verde a laranja, a dança parou, olharam-se de perto e deitaram-se na estrada, lado a lado. As suas mãos cruzaram-se enquanto o vermelho do semáforo despontava, olharam as estrelas, identificaram cada uma delas sobre um chão frio que refrescava os seus corpos quentes, ávidos de aventura. Perderam a noção do perigo, permaneceram deitados sob um céu que deixava mostrar uma lua prateada, autêntica confidente de um momento que não queriam que acabasse.

O sinal passou a verde, sentiram um carro aproximar-se a alta velocidade e levantaram-se rapidamente. Saltitaram até ao passeio, as mãos continuavam dadas enquanto automóveis vindos de longe passavam apressados. Abraçaram o semáforo que ia mudando de cor, soltaram gargalhadas e voltaram a tocar-se numa dança lenta em redor do sinal de trânsito. Os risos deram lugar a sorrisos ternurentos.

Sentiam-se livres para desafiar o destino. O amor entre eles nascia agora, por entre um perigo e uma aventura que se encontravam entre o proibido e o devido. Era urgente permanecerem no intermitente, um intervalo que deixava o tempo parar e guardar nas folhas de um diário uma paixão que começava a ganhar as cores de um qualquer semáforo de rua.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Desabafos solitários

 

Encontrei a minha amiga M. ontem. Estava na avenida a alimentar os patos que se aproximavam da pérgula com avidez. Achei-a distante, com o olhar vago entre as águas de um rio que corria devagar e um céu que se pintava de azul. Não deu pela minha presença quando me aproximei mas, ao ver-me, esboçou um sorriso. Percebi que não era o mesmo de antigamente.

Convidei-a para um café. Aceitou de imediato e fomos andando, lado a lado, sob os castanheiros que enfeitam os beirais do longo passeio da avenida. O sol tinha despontado neste domingo, escondia-se por entre as árvores do jardim onde famílias inteiras passeavam e os velhinhos se sentavam nos bancos frente aos canteiros floridos.

Sentámo-nos numa mesa do lado de lá da esplanada, junto ao rio, onde o sol nos ia protegendo do frio e aquecendo o corpo e a alma.

Pedi um café para duas, acendi um cigarro e perguntei à M. se queria desabafar.

Disse-me que sentia uma tristeza que lhe rasgava a alma, que tinha medo do amanhã. Falou-me da retrospectiva que fez da sua vida, que não era a que queria ter tido, que gostaria que tudo tivesse sido diferente. Contou-me as coisas que queria ter feito e não fez, os objectivos de vida que teve e não se cumpriram. Disse-me o quanto gostaria de ter conhecido outros povos, outras culturas, outros climas, sentir outros cheiros, ver outras cores. Viagens que idealizou e que se ficaram apenas pela descoberta das imagens que a televisão e o computador nos mostram. Falou-me das crenças que tinha e que deixaram de existir, das lutas em vão por dias melhores, da solidão. Sim, a minha amiga M. falou-me de solidão. Disse-me que se sentia só, mas resignada. Não se imaginaria, sequer, em qualquer outra situação que não fosse essa, tamanha tinha sido a sua entrega a uma vida que se fechara para o mundo. Falou-me dos dias e das horas solitárias enquanto o planeta gira lá fora, injusto e catastrófico às mãos do egoísmo e ganância do Homem. Disse-me que a amedronta ficar assim, a assistir ao desabar do mundo sem ninguém por perto. Contou-me que, a cada manhã, deseja encarnar uma outra personagem, qualquer uma que não ela. Alguém completamente diferente, mas que lhe permita voltar a ter a vivacidade que sempre a acompanhou, o sorriso aberto, as gargalhadas e aquela vontade de viver sempre inquebrável. 'Sinto-me perdida. O meu espírito está indiferente e a minha alma errante', confessou. Perdida, sim. Notei-o desde que a encontrara, mas mostrava-se adaptada e aparentemente bem. Mas o mundo não precisava de saber que a tristeza lhe dilacerava a alma e o coração. Sentia-se despedaçada, sem rumo, ausente, distante.

Ouvi-a atentamente, uma lágrima caía-me pelo rosto a cada palavra sua. A voz tremia-lhe a cada sentimento revelado, mas não chorou. Disse-me que as lágrimas secaram do tanto que caíram ao longo dos tempos. Falou-me de saudade, daquela que a acompanha a cada instante, saudade de quem foi. Contou-me do papel que desempenha todos os dias, da vontade de desistir e partir em busca de algo que a liberte. 

Confessou-me o que gostaria de ter sido. Talvez um pássaro. Poderia ter sido uma gaivota, uma andorinha, um falcão, um corvo. Queria ter tido uma outra vida, vivido uma outra história, pertencido a um outro destino. Gostaria de ter percorrido uma outra estrada, traçado um outro rumo, seguido numa outra viajem. Queria ter pisado um outro chão, vivido num outro lugar. Gostaria de ter tido uma outra alma, um outro coração, uma outra mente, outros sentidos.

Não consegui interrompê-la no seu desabafo. Senti um nó na garganta e um arrepio na pele. As palavras escondidas por detrás de um rosto cansado desprendiam-se agora, soltavam-se a cada raio de sol que incidia sobre o nosso lugar.

'Queria que tudo tivesse sido tão diferente', disse no final do desabafo. E sorriu, como se aquele momento a tivesse ajudado a ganhar força para enfrentar qualquer batalha que se lhe deparasse. Porque faz tanta falta um ombro amigo, alguém que ouça mesmo que em silêncio. Basta escutar, porque esse gesto é demasiado importante e demonstra que pode existir sempre alguém que, em determinados momentos e por algum tempo, consegue ajudar a quebrar qualquer solidão.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me:
a música que estou a dançar: Steel Rain de Chris Cornell
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Domingo, 17 de Janeiro de 2010
Recordações escondidas

 

 

Acordei no mais frio domingo de Inverno dos últimos tempos. Olhei pela janela do quarto, observei a serra escondida para lá da chuva que caía sem cessar. A manhã estava imensamente triste, de tal forma que me transmitiu uma intensa nostalgia. Vagueei pela casa, preparei-me para as lides domésticas e subi a longa escadaria até ao sótão. Seria essa a divisão à qual me dedicaria naquele dia cinzento. Afinal, há muito tempo que não cumpria a tarefa de limpar o velho sótão onde, tantas vezes, me refugiei quando criança. Ao fim de subir os degraus que separavam o meu ninho do amplo recanto onde abundavam antiguidades, recordações de um passado longínquo, parei para retomar o fôlego e preparar-me para a labuta que se adivinhava. Aproximei-me da janela, abri-a de par em par e imaginei  a avenida onde nasci coberta de lilases que deixavam um cheiro fresco como que num dia de Primavera. Peguei no pano para iniciar a limpeza ao pó que se avistava nos móveis velhos, outrora pertencentes à parte inferior da habitação. Ao atravessar o amplo espaço construído de madeira, tropecei na velha arca de verga que pintei de azul há muitos anos atrás, agora encostada a um dos cantos do sótão.

'A velha arca azul, de memórias antigas guardadas. É mesmo por aqui que vou começar', pensei. Baixei-me devagar e abri a arca cuidadosamente, talvez com receio do saudosismo que me pudesse transmitir.

Bem no topo, por cima de postais do primeiro namorado, diários de aventuras da minha adolescência, livros de autógrafos de colegas de escola, cadernos e provas dos tempos de estudante, encontrava-se um saquinho de serapilheira natural fechado com um laço castanho. Desembrulhei o atilho e retirei do seu interior uma caixa de cartão reciclado, de cor bege, com uma textura refinada e uma flor em relevo num dos cantos da tampa. Segurei a pequena caixa nas minhas duas mãos, senti o cheiro doce que mantinha e abri-a delicadamente. Dentro da caixa, pousada num baralho de tarô, uma pequena carta semiaberta, outrora lacrada, deixava mostrar uma letra fina e inclinada. Senti-me regressar ao passado numa velocidade extrema.

'4 de Outubro de 2003. Recebi este baralho de tarô em 1996 e, na altura, disseram-me que me iria ajudar. Hoje, nada tenho de feiticeiro e este baralho já me ajudou bastante. Espero que faça o mesmo por ti. Um grande abraço de parabéns, neste dia tão especial.'

Feiticeiro, meu amigo eterno, fazes-me tanta falta. Pensei e cerrei as pálpebras com força. Naquele instante parou o tempo, esqueci-me da chuva e do frio lá fora, perdi a vontade de limpar. Viajei nos anos, fui ao encontro do maior amigo da minha vida. Vieram-me à memória as longas conversas que tivemos, as palavras que tão carinhosamente dissemos um ao outro, os segredos que revelámos, os mistérios que desvendámos, a lealdade que ficou entre nós. Almas unidas, corpos separados por um baralho de cartas que se cruzava por entre as nossas opiniões divergentes mas tão saudavelmente expostas em cima de uma mesa de amizade.

Passaram bastantes anos, demasiados até, mas o sentimento entre nós mantém-se inalterável apesar da distância geográfica que nos separa. Guardo até hoje, guardarei até sempre a pequena caixa, o baralho de tarô e a carta lacrada com um sentimento tão especial que, creio, não conseguirá caber no mundo inteiro. Acredito, tal como o maior amigo da minha vida me confessou um dia, que pudemos ter sido numa outra vida talvez irmãos, talvez amantes. Que um sentimento muito forte nos une desde o primeiro dia em que o nosso olhar se cruzou.

As cartas de tarô estão por lançar, esperam que o feiticeiro da minha vida volte para ler o meu destino.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: nostálgica


Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Pedido sem sentido

 

Querido Duarte,

 

Ontem, pediste-me para ficar. Mas eu saí apressada, na minha condição de não voltar. Caminhei sem rumo, perdi-me nas horas. Sentei-me junto ao rio que passa no jardim onde deixei guardados pedaços da minha felicidade. Lá, bem perto do céu, senti a luz do sol afagar-me o rosto ao mesmo tempo que a chuva caía sem cessar sobre o meu corpo. O vento insistiu em trazer consigo as palavras que disseste antes de partir. Gosto de ti, sussurraste. Mas eu saí sem olhar para trás. Esqueci o beijo que não demos, aquele que me pediste baixinho mas que não conseguiste roubar-me. Lembras-te?

'Não me afastes assim da tua vida'.

Sabes? As palavras também nascem, crescem, vivem e morrem.

E a chuva e o vento persistem em ficar.

 

Laura

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: vazia
a música que estou a dançar: Preaching the end of the world de Chris Cornell


Sábado, 9 de Janeiro de 2010
Um mimo dourado

 

 

Agradeço a quem muito carinhosamente me presenteou com este mimo. Sindarin na sua Floresta de Lórien, DianaMarta no Vivacidades. Muito Obrigada.

Vou quebrar as regras e dedicar este prémio a todos os amigos que vão passando por aqui e deixam uma palavra de apreço.

 

Beijinhos a todos.

 

Leonor Teixeira

 


sinto-me: com saudades de estar aqui
a música que estou a dançar: Heroes & Saints de Nicolaj Grandjean
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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Natal 2009=Natal 2008

 

Eis o que escrevi o ano passado sobre o Natal e transcrevo agora, porque a inspiração é pouca, o tempo é escasso e o sentimento idêntico.

 

15 de Dezembro de 2008, 23:21.

Ainda não falei sobre o Natal este ano. Afinal, já estamos nesta época festiva e a noite da verdadeira união familiar está quase a chegar.

Sinceramente, o Natal não me diz grande coisa a não ser que gosto do cheiro da época, aquele que se sente no ar nas vésperas do 25 de Dezembro. E as famílias unem-se. Ou fazem para que isso aconteça.

Não nos esqueçamos, no entanto, de todos aqueles que nada têm. Dos que não têm família, dos que não têm amigos, dos que não têm ninguém.

Quando vejo a agitação das pessoas nas ruas iluminadas de efeitos natalícios, a olharem para as montras cheias de coisas boas para comprar, imagino quem não pode fazê-lo. As lojas atulhadas de gente que se atropela, para conseguir isto ou aquilo antes que esgote, transmite-me um certo sentimento de revolta.

Isto faz-me lembrar cada criança que, ao passar na rua, pára em frente a uma vitrina com brinquedos ou a uma pastelaria cheia de doces e ali fica, a olhar para o que não pode ter. E permanece parada, porque não pode entrar.

É por isto que o Natal não tem muito significado para mim. Por outro lado, há a partilha da família. O estar perto de quem se ama verdadeiramente.

 

E aqui vos deixo o meu desejo, aquele que tenho vindo a demonstrar em palavras de há dois anos para cá. Para além de ser dirigido aos que me lêem, é dedicado a todos os que não podem ter um Natal melhor.

 

Que os vossos desejos

venham embrulhados de saúde

e envoltos em laços de carinho...

Que vos seja permitido acreditar

na realização dos vossos sonhos...

...dia após dia...

 

Feliz Natal para todos!

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: sem espírito natalício
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
PLÁGIO. Até quando?

 

Um dia, há bem pouco tempo, deixei um comentário a este texto da amiga Ennoea no seu blog  O Rosto e a Máscara, depois de ter lido este post aquando da sua revolta perante o conhecimento que teve ao ter sido alvo de plágio.

Acreditem que hoje sinto o mesmo depois de ter descoberto, através do copyscape, que agarraram neste texto que EU ESCREVI em 21 de Junho de 2009 para a Fábrica de Histórias e aparece agora neste blog datado de 20 de Outubro de 2009, neste outro com data de 6 de Setembro de 2009 e até neste fórum há dois meses atrás (sem data).

 

A cópia:

O Silencio das Palavras

S£ntidos

Fórum

 

Repito e volto a repetir, tal como o fiz aqui:

Crimes desta natureza têm de ser banidos, sinto-me na obrigação de 'gritar' que há quem copie de forma fraudulenta os trabalhos que são nossos.

Então, afinal, nós escrevemos e os outros é que subscrevem as nossas palavras? Sabemos lá nós por onde 'andam os nossos blogs'?

É lamentável e revoltante criar um espaço próprio e existirem pessoas capazes de copiar o que não lhes pertence, não dando crédito ao verdadeiro autor e, para além disso, alterar os textos originais.

Uma total falta de respeito para comigo, neste caso, e para com o que escrevo. Como é possível tanta falta de integridade? Tanta falta de honestidade?

A todas as pessoas vítimas de plágio, eu também faço parte dessa injustiça! Ou pior, crime! Os plagiadores têm de ser denunciados! E fiquem os mesmos a saber que, mais cedo ou mais tarde, são descobertos e os seus nomes podem vir a ser divulgados. E mais acções poderão ser postas em prática! Respeito às obras e aos seus autores! Há que lutar contra este crime!

 

Há que tomar medidas, certo?

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: REVOLTADA
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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009
Reencontro

 

Querido Duarte,

 

Queria escrever-te mais uma carta mas, desta vez, sem falar de corações destroçados, de sentimentos desencontrados. Queria escrever-te uma carta, sim, mas construída de palavras doces e coloridas, sem mágoas e lágrimas.

Não quero histórias sobre confissões do que senti por ti, dos gritos silenciosos de um amor que durou demasiado tempo, tanto que não sei quanto. Não quero histórias que ficaram entre o partir e o ficar, sem princípio, meio e fim.

Sabes? Gostaria de falar-te de outras coisas. De sonhos, de desejos, de fantasias que foram preenchendo as horas dos meus dias.

Gostaria de falar-te da beleza que ficou por descobrir, dos passeios que ficaram por concretizar, do tanto que tivemos por inventar, das coisas mais simples da vida que deixámos por partilhar.

Queria dizer-te, até, que poderíamos ter alcançado o inatingível. Sabes que através dos sonhos tudo se torna possível? O nosso imaginário consegue chegar até onde a nossa alma nos levar. E tudo se torna tão bonito.

Posso contar-te que, juntos, já caminhámos à beira mar numa praia deserta, contemplámos o por de sol num fim de tarde de verão sentados na areia. Mergulhámos, lado a lado, numa onda branca e conseguimos chegar perto dos mais belos corais no fundo do mar. Depois de admirarmos um mundo de mil cores onde se respira natureza pura, nadámos de mãos dadas até à superfície dos oceanos. Para lá das águas cristalinas, sentimos o sol de um dia acabado de nascer que nos iluminou o rosto. Lembras-te da nossa dança na praia? Aquela que ficou por inventar? Conseguimos ondular os nossos corpos e enlaçámo-nos numa agitação lenta dos sentidos. À nossa volta, o som do mar cruzou-se com o cântico das gaivotas e, antes de partirmos, desenhámos o nosso nome na areia. Sabes? Ainda sinto o sabor a sal que ficou na nossa pele.

Juntos, percorremos estradas limpas e frescas, caminhámos devagar por entre montes e vales, saltámos nas pradarias. No final, descansámos abraçados debaixo de uma árvore no bosque secreto que guardou os nossos beijos. Consegues sentir o aroma das flores campestres? Tenho uma guardada nas páginas do livro que escrevi para ti.

Gostaria de falar-te do quanto acreditei que tudo poderia ser possível. Da esperança de ver-te chegar com uma rosa vermelha na mão e um brilho no olhar. Dos teus braços abertos para me levarem até ao mais alto dos rochedos e, de lá, admirar contigo a mais sublime das paisagens. Das semanas a viver-te por completo, dos meses de partilha, dos anos a teu lado com sorrisos.

Queria pegar nas palavras que te escrevi e declamar-tas num poema eterno. Queria recitar-te, num cenário de neve a cair numa noite de dezembro, o que a minha alma viveu por nós.

Gostaria finalmente de confessar-te que, ao reencontrar-te, senti confiança. Coragem para gastar a minha voz num grito e exclamar, de coração aberto, que renasceu a minha capacidade de lutar. Lutar, mas desta vez, por mim. Porque agora, mais do que nunca, quero recuperar a minha liberdade. A de ser feliz. Concedes-me esse direito?

 

Laura

 

 

Leonor Teixeira

 

 


a música que estou a dançar: Open arms de Journey


Domingo, 29 de Novembro de 2009
Queres saber uma coisa?

 

 

Queres saber uma coisa?

Queria pintar de arco íris a nossa infância. Vens comigo?

Vamos pincelar de azul o cinzento dos dias e transformar os pingos da chuva em gotas de prata.

Consegues avistar a floresta lá ao longe? Está pintada de verde e se subirmos à cabana feita de madeira que está na árvore que é só nossa conseguimos, lá do alto, sentir o cinzento das nuvens transformar-se em rosa e podemos ver pedaços de um sol que se retira para adormecer. Os pássaros estão escondidos pelo medo do tempo. Vamos ao seu encontro e pedir-lhes que nos ensinem a voar?

Sabes uma coisa? Gosto de estar aqui contigo. Tu, que tens os traços tão diferentes dos meus e que, ao mesmo tempo, és tão igual a mim.

Vamos lançar ao vento o guarda-chuva que nos ampara, tirar os chinelos dos pés e saltitar descalços por esta terra molhada que nos oferece um cheiro doce e alimenta os nossos sentidos?

Vens comigo sentir a chuva cair sobre a nossa pele? Parece água morna que vem do céu e nos ajuda a chapinhar nas poças do caminho que nos leva ao esconderijo que nos espera. De lá, conseguimos admirar o verde da erva que enfeita a berma da estrada.

Sabes? Aqui, não tenho frio e contigo não me sinto só. Um dia, encontrámo-nos e conhecemo-nos. Agora, damos as mãos todos os dias e brincamos juntos. Sabes que, à noitinha, consigo ver a lua espreitar por entre as nuvens que pintam o céu de branco? Não sentes o mesmo?

Aqui, neste lugar onde vivemos, misturam-se pedaços de cada ponto do mundo. Aqui, não existem diferenças, não há medos. Aqui, sente-se um cheiro a liberdade.

Queres saber uma coisa? A nossa cor de pele é tão diferente, mas as nossas almas são tão semelhantes. São cristalinas.

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 




Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Perguntas sem resposta ou o Mistério da Vida

 

Tantas vezes gostaríamos de voltar atrás e trazer os tempos de outrora connosco, mas não podemos mudar o curso da vida. Insistimos em voltar ao passado, porque nos é difícil interiorizar que não conseguimos voltar a viver o que não se repete nem podemos alterar o que gostaríamos que tivesse sido diferente. Porque, efectivamente, existem coisas impossíveis e essa é uma delas.

Mas, por vezes, os nossos sentidos estão acima da prudência e mergulhamos num turbilhão de emoções difíceis de conter. Rumamos em direcção ao que não queremos para nós, porque o que nos invade é o medo de que o amanhã não exista. Neste caso, é preferível parar do que dar um salto para o desconhecido.

É querermos viver o momento e desejarmos que o tempo pare a todo o custo, não importa se é certo ou errado, tamanha é a entrega. O relógio continua no seu compasso apressado, mas o mundo lá fora deixa de existir. Porque é nessa prisão que se liberta um coração e o resto não interessa.

E queremos que tudo volte a acontecer para vivermos os mesmos sentidos, da mesma forma. É a intensidade dos momentos que nos marcam para sempre e deixam saudade. E tudo se repete na nossa memória, porque agora já não estamos no mesmo lugar. Mas, tantas vezes, voltamos lá para (re)viver tudo outra vez.

Queríamos nós que a razão falasse mais alto, mas ainda há corações que continuam a bater acelerada e descompassadamente. Gostaríamos que eles batessem de uma forma regular, mas quem consegue controlar sentimentos mais fortes?

Não falo apenas de amor, mas também de amizades, afinidades. Falo de perdas, de ilusões, esperanças e desilusões num universo de almas que se vão cruzando ao longo dos tempos. E de uma estranha forma vemos os anos correr, sentimos o tempo escassear. O passado deixa de ser o ontem, o presente já não é o hoje e o futuro faz parte dos dias que não temos a certeza se vão chegar. Dizemos adeus a quem viaja para parte incerta sem sabermos se vai voltar, há palavras que deixamos por dizer a quem partiu sem deixar rasto. Ouvimos notícias menos boas de quem já não está por perto, observamos pessoas lutarem contra uma doença que surgiu sem avisar, outras que desistem de viver a cada dia. Assistimos a vidas que se extinguem, umas por tragédias incompreensíveis outras, dizem, pela lei que a natureza obriga. E perguntamo-nos porquê.

Posso dizer que vou andando, passo a passo, por esta ponte que me deixa admirar um rio que é sereno porque, por enquanto, a vida me permite fazê-lo. E continuo a sonhar e a tentar acreditar num amanhã melhor e, mesmo sabendo que muitos desejos não passam de utopia pura, prossigo nesta minha luta imaginária. Não sei se ainda me encontro a meio da ponte, mas vou tentar seguir para a outra margem o mais rápido que puder. Tenho de conseguir. Preciso urgentemente de mergulhar nas águas de um rio que transborda de esperança.

Os porquês e as dúvidas, as incertezas que me acompanham nas horas e a resposta que teima em não surgir. E fico assim, sem perceber a razão dos encontros e desencontros, das almas que se ausentam, da espera por um regresso que não chega, das vidas que se perdem, das esperanças que vão morrendo pouco a pouco. E tudo se mantém, neste ponto de interrogação.

Acredito que as coisas não acontecem por acaso e sinto que o que ficar por resolver nesta vida, resolver-se-á noutro lugar. Porque tem de haver uma resposta, tem de existir uma explicação para este mistério.

Há tanto para dizer, tantas ideias que divergem, opiniões discordantes e, ao mesmo tempo, tantas palavras que se trocam na mais perfeita harmonia. Mas a realidade é esta, a que vivemos, longe ou perto de um passado que não se repete e de um futuro incerto. Para quando a resposta a tudo o que não conhecemos e não sabemos nem conseguimos compreender?

Um dia, talvez...? Cabe ao destino decidir.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a reviver o passado
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
2.º aniversário do Danças em Silêncio

 

 

Faz hoje dois aninhos que criei este blog em sequência do meu outro, Asas Perdidas, que se encontra em stand by há muito tempo.

Não estou aqui para dar os parabéns a mim mesma, mas para agradecer as amizades construídas neste mundo blogosférico. Estar aqui tem sido deveras gratificante.

Foi muito mais do que criar cento e quinze posts e ter mais de mil comentários. Foi o conhecer pessoas novas que, sem a existência de presença física, se envolveram num sentimento grandioso.

No início, tudo era novo e desconhecido. Não havia visitas, não se conhecia ninguém mas ía-se espreitando um ou outro espaço e, com o passar do tempo, foram chegando autores de mundos fantásticos. Entrámos nos cantinhos uns dos outros, devagarinho e sem abusar, fomo-nos conhecendo através das palavras e criando laços de ternura invulgares. Hoje podemos dizer que há aqueles que fazem já parte da nossa vida.

É com muita honra que escrevo no sapo, aquele batráquio que nos deixa entrar e nos dá liberdade para escrever, criar. Por diversas vezes mudei o rosto ao blog, alterei os templates, as cores, os componentes, os títulos e as descrições. Dei um nome a mim própria, alterei o pseudónimo uma ou outra vez e, finalmente, decidi-me por ficar mesmo assim. A Ametista do Danças em Silêncio. Curioso é que ontem voltei a mudar o template e digo-vos que alterarei as vezes que forem necessárias. Porque é sempre bom mudar, quantas vezes nos apetecer.

Neste nosso mundo tenho conhecido blogs indescritíveis, formas de escrita envolventes e outros tipos de arte simplesmente fenomenais. Aqui cruzam-se emoções, misturam-se lágrimas, risos e sorrisos. Partilham-se alegrias, tristezas, abrem-se corações e unem-se almas. Por aqui também existem verdadeiros construtores de sonhos, onde podemos escrever até onde a nossa imaginação nos levar. Aqui publicam-se livros, concretizam-se sonhos.

Um dia este cantinho chamou-se Aqui Sou Feliz. Acreditem que o fui e hoje posso dizer que continuo a sê-lo. E não me canso de repetir que sou mesmo feliz aqui convosco!

 

Obrigada a todos.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me:
a música que estou a dançar: Purple Rain de Prince
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Porque sim

 

O meu cantinho está assim...

 

   

Beijinhos a todos.

 

 

 


sinto-me: em reconstrução
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Domingo, 25 de Outubro de 2009
Os protagonistas

 


 

O envelope lacrado permanecia perdido no chão. A seu lado, um corvo acabava de fechar as asas e olhou para mim sem se mover. Os meus olhos castanhos pararam no tempo e as minhas mãos pálidas tremeram ao querer alcançar o envelope, mas o meu corpo esguio permaneceu inerte por entre as batidas fortes de um coração assustado.

Escutei um ligeiro ruído, ergui o olhar e deparei-me com alguém surgido do nada.

Era excessivamente moreno, alto e bem constituído, cabelos longos e lisos da cor dos seus olhos, negros como as asas do corvo que acabara de ver ali, naquele lugar. Era bonito, demasiado até, com uns traços de índio que lhe aumentavam a beleza.

O corvo desapareceu no instante em que o desconhecido declarou, em silêncio, a sua presença. Pegou na carta com as suas mãos ligeiramente enrugadas, de onde sobressaía uma penugem invulgar. Estendeu-me o envelope lacrado e acenou a cabeça como quem diz: Abre.

O meu rosto descorado deixou transparecer incredulidade por um lado, mas por outro uma confiança rara. Por momentos, senti um ar fresco e brando vindo de qualquer lugar estranho e que me transmitiu sedução por tão grande mistério. Os meus cabelos castanhos ondularam por entre a brisa que ia chegando e acalentando o meu coração, de tão apressado que batia. Os meus lábios ligeiramente finos rasgaram-se num sorriso incerto e agarrei na carta a receio.

Puxei o lacre suavemente e, com um misto de medo e curiosidade, retirei a folha de papel escondida no envelope cor de ébano.

Pestanejei antes de começar a ler as palavras contidas na carta mas, antes, perguntei ao desconhecido o seu nome. Corbie, disse-me com uma voz grave e doce ao mesmo tempo que esboçava um sorriso que deixava mostrar os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados.

Comecei a ler a carta enquanto sentia, bem perto de mim, o seu ar sereno e um olhar profundo.

 

'Vem comigo e entra no mundo que inventei só para ti.

Não sabes quem sou, mas eu conheço-te como ninguém. Conheço os teus sonhos, as tuas vivências, as tuas angústias e as tuas esperanças. Sei que guardas segredos, recordações jamais esquecidas e trazes contigo uma força interior que te deixa sorrir e acreditar em dias melhores. Sei de cor a tua alma cigana e o teu espírito tão próprio de uma criança que se recusa a crescer. Sei que queres ser livre e sobrevoar até sempre o mar que te apazigua o coração.

Vem comigo. Quero levar-te a conhecer um mundo imaginário totalmente à parte deste em que vives e, no fundo, tão perto daqui. Lá, conseguirás ser feliz.

Despe-te de preconceitos, mascara-te, veste-te das personagens que um dia sonhaste ser. Encarna os papéis principais ou secundários. Escolhe. Dou-te esse direito. Se pretenderes, sê apenas figurante e admira os cenários, envolve-te neles. Lá, no lugar de que te falo, as pessoas são imortais e transformam-se em pássaros.'

 

Para a Laura, de um corvo perdido que não traz maus presságios.'

 

Olhei para o homem que se deparava à minha frente e deixei-me ficar no silêncio que transbordava em nosso redor. Eu, Laura, secretária de uma média empresa e pintora nas horas vagas, era uma mulher sonhadora em demasia. Estaria eu perante um construtor de sonhos?

Ele estava ali, descalço, um corpo semi-nú coberto por uma capa negra e longa com um capuz que lhe caía pelas costas. Sobre o ombro, um corvo que aparecia e desaparecia por entre voos curtos e lentos. Voava com as suas asas de veludo e pousava, de seguida, suavemente. Enquanto o corvo esvoaçava sorrateiramente, o homem misterioso desaparecia por breves instantes e regressava com um olhar enigmático. 

Olhei para mim mesma de preto trajada, um vestido que me torneava o corpo até aos pés. Descalça também e com os cabelos compridos em desalinho, estendi-lhe a mão e parti com ele.

Um homem-corvo, um feiticeiro, um anjo quem sabe, que trouxe consigo bons presságios e me fez partir em busca de uma liberdade incógnita que precisava, urgentemente, de alcançar.

 

 

 

(Texto fictício escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a fantasiar
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Um dia p'ra não esquecer

 

O dia da apresentação do livro

 

  

3 de Outubro de 2009, 10 da manhã.

 

Levantei-me, depois de um sono ansioso, sem saber muito bem a que planeta pertenço. Terra ou Marte?

Deambulei pela casa e senti o meu corpo tremer. É hoje. Olhei-me ao espelho e perguntei-me: É mesmo hoje? Meu Deus!

Olhei através da janela do quarto. O sol brilhava como num dia de Verão. O dia estava pura e simplesmente lindo.

Coragem, Leonor, coragem. Tu vais conseguir. Ouvia a voz de um anjo bem juntinho ao meu ombro que sussurrava: Calma...

O meu coração batia aceleradamente enquanto me preparava para agarrar o dia. Carpe Diem. Afinal, hoje é um dia especial e único na tua vida, miúda - disse-me o anjo.

Lembro-me que falei comigo mesma o tempo todo. Parecia um autêntico diálogo mas, afinal, quem estava ali era apenas e somente eu. Que belo monólogo, sem pés nem cabeça e sem espectadores.

Percorri a casa de trás para a frente e de frente para trás e no fim de me encontrar completamente preparada para sair, parei em frente à porta de entrada e enchi o peito de ar para depois o expirar, muito devagarinho. Ainda falta, pensei.

Mal tinha calçado os sapatos que tinha comprado de véspera e já começava a sentir uma ligeira dor nos pés. Tacão alto? Alto não, altíssimo! Nunca mais na vida. Não tarda, já não consigo andar. Agora tens de aguentar, Leonor.

Não me lembro de conduzir até casa da minha mãe. Foi como se o carro me levasse como que numa onda que rebenta velozmente.

 

3 de Outubro de 2009, 15 horas.

 

Tocou o telefone e atendi num ápice. Acho que gritei, não me lembro bem, e do outro lado soaram risos. A Helena da Autores Editora acabava de chegar à minha santa terrinha. Não se encontrava muito longe e, de tão querida que é, num instante encontrou o caminho para a casa da minha mãe. Demos um abraço há tanto esperado.

Apresentei-lhe a família, conversámos um pouco e tentou acalmar-me tal era o meu nervosismo.

Estávamos nós numa conversa animada e uma vez mais a Helena no seu melhor a ajudar-me a descontrair, o telefone voltou a tocar. Quem poderia ser? Não mais do que a Diana, minha querida amiga Maria das Quimeras e a Marta, a muito admirada Sonhandoaosquarenta, ambas perdidas no meio da cidade, quem sabe mais localizadas do que eu própria, muito mais perdida do que elas. Acho que a minha voz tremia enquanto tentava ensinar-lhes o caminho para a casa da minha mãe, mas atrapalhei-me toda e a minha irmã conseguiu salvar a situação (pensávamos nós). Esperámos por elas, mas escapou-se-lhes um pormenor importante e, depois de algum tempo de espera, já a Diana e a Marta se encontravam na direcção oposta e a caminho do local da festa.

Fomos ao seu encontro mas, às tantas, estávamos tão perto e não nos conseguíamos ver. Finalmente, lá nos avistámos e seguimos viagem em fila indiana até ao destino.

Parados os carros numa ladeira íngreme, fui ao encontro das minhas queridas amigas por entre braços abertos e um andar desengonçado.

Foi um momento bonito. Abraços, beijos e sorrisos.

 

3 de Outubro de 2009, 17 horas.

 

Encontrava-me ainda por detrás do balcão do bar a tirar uns cafezinhos para as convidadas especiais (a máquina fez um barulho esquisito e ainda pensei que íamos ficar sem café), quando começaram a aparecer alguns amigos e conhecidos, família e colegas de trabalho. Fui apanhada completamente desprevenida. Pensei que as pessoas começassem a  chegar um pouco mais tarde, mas foi puro engano meu. A surpresa foi grande e, ainda as manas andavam atarefadas a dar os últimos retoques no bar, já as pessoas começavam a instalar-se na esplanada. Acho que 'rosnei' a quem me ofereceu ajuda e quase me senti 'à beira de um ataque de nervos' antes de um discurso feito à base de agradecimentos e sem formalidades.

Queria estar em todo o lado. Com as amigas do blog, com a Gerente da Fábrica e com todos os que carinhosamente iam chegando. Mas impossível desdobrar-me e o tempo voou. Um bocadinho aqui, outro pedacinho ali e as palavras não me saíam, a não ser muito obrigada.

 

3 de Outubro de 2009, 20 horas.

 

Depois das pessoas começarem a dispersar permaneceu um grupo e, ao cair da noite, decidimos ir jantar a um restaurante que se encontrava ali perto. Deslocámo-nos até lá numa bela caminhada na mais perfeita harmonia.

Enquanto sentíamos o ar ameno de uma autêntica noite de Verão conversávamos, por entre sorrisos e gargalhadas, à porta do restaurante. Esperámos hora e meia, se não mais, para conseguirmos uma mesa vaga para doze pessoas. Juntaram-se as operárias da Fábrica e a sua Gerente. Falámos de nós e das inspirações, dos temas semanais, da produtividade e do atraso na entrega dos textos.

Foi um jantar divertido onde imperou a alegria e boa disposição, disparates saudáveis e bom humor, típico dos ribatejanos. Eu, refeita do estado de nervos, comecei a sentir-me meio 'abananada' e com pouca reacção.

Regressámos ao bar, aproveitámos o ar da noite e sentámo-nos em roda de uma mesa de amizade. Trocaram-se mails e endereços dos blogs, tiraram-se fotografias para recordar. Qual não foi o meu espanto quando se fez silêncio e começaram a cantar-me os parabéns. Esquecera-me por completo do dia que acabava de entrar e fiquei comovida com mais um gesto de carinho.

 

4 de Outubro de 2009, 1 da manhã.

 

Hora da despedida.

Saída do Ribatejo por parte de quem pertence à Estremadura. Demos abraços e beijos de despedida e o obrigada por tudo sempre presente. Ao vê-las partir, a saudade instalou-se de imediato.

Para quando um novo encontro? Talvez para breve...

 

 

P.S. E é que não foi mesmo? E como resultado do encontro, eu e a Marta começámos a fazer parte do blog No Estendal da Maria a convite da própria. Vão lá espreitar, vão!

É só rir!

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a recordar com um sorriso
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Domingo, 18 de Outubro de 2009
Uma rua sem nome

 

Rompe o dia e desperto de um sono tranquilo. Levanto-me, dirijo-me à janela do quarto e afasto o cortinado que encobre, muito ao de leve, a luz vinda do exterior. O sol parece espreitar, meio escondido, através de nuvens brancas.

Observo as árvores que resistem ao tempo num terreno bravio bem perto de mim. Contemplo a serra que se avista ao longe e respiro o ar fresco da manhã. Há um misto de cores que entram pelo meu quarto, bem cedinho, ao acordar. O verde dos montes que se funde com o castanho da terra e o céu que vai limpando, deixando transparecer o azul que lhe é fiel.

Caminho até à sala, abro a janela de par em par e respiro o cheirinho a pão quente que vem da pastelaria do outro lado da rua. Tem bolos fresquinhos de fabrico caseiro. Por cima da lojinha do pão, janelas semiabertas deixam a descoberto cortinados coloridos que ondulam com a brisa matinal.

Um autocarro pára junto da escola acima da minha rua. Vejo carros que passam e estacionam junto ao passeio, outros que seguem viagem. Consigo escutar gargalhadas infantis no átrio e a campainha de entrada para as aulas acaba por tocar.

Há vozes que se cruzam na rua por entre passos, uns apressados outros vagarosos. Os cães ladram ao longe, ouvem-se disparos de espingarda em época de caça.

Ergo o olhar e avisto o castelo da cidade que conhece tão bem as minhas raízes. Estão guardadas num canteiro de flores.

De um dos lados da casa, inalo o aroma que a natureza me oferece. Do outro, sinto o cheiro a movimento numa rua que se cala a cada fim de semana.

Fecho a janela, abstraio-me do ruído da vida lá fora e deixo-me ficar no silêncio do lar.

A campainha quebra o meu momento repousante, abro a porta mas não vejo ninguém. Há um envelope lacrado perdido no chão.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: sem inspiração
a música que estou a dançar: Squander de Skunk Anansie
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Domingo, 11 de Outubro de 2009
Hoje, queria ser um pássaro...

 

...e sentir-me assim... azul...

 

 

Linda imagem, não concordam? Tirei-a daqui, mas não é feita referência ao autor como em todas as que vou encontrando. Enfim...

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: sem cor
a música que estou a dançar: Everytime de Britney Spears
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Aqui, de onde vos escrevo...

 

 

Aqui, de onde vos escrevo, sente-se um aroma tradicional do incenso que vou espalhando pela casa.

Tu entras devagar, à tardinha, beijas-me a testa em sinal de apreço e deixas-me divagar.

Os meus dedos dançam por entre as teclas do computador da secretária colocada num recanto da sala ampla onde tu, sentado no sofá chaise-longue de tecido castanho escuro e preto, assistes a um filme romântico.

Inspiro-me ao som da banda sonora, uma música sublime de Jack Nitzsche. Observas as paredes cruas decoradas com telas criadas por mim, umas abstractas outras paisagísticas, que contrastam na perfeição com a arte africana que as completa.

Do outro lado da sala, cortinados laranja percorrem a ampla janela de onde avisto o castelo da minha cidade. No final do filme levantas-te, afastas a cortina e contemplas a paisagem num silêncio absoluto.

Voltas a sentar-te, desta vez no sofá amarelo que está junto à janela, coberto de almofadas pretas e laranja, e poisas os pés na alcatifa que cobre parte do chão em tijoleira. Tem um misto de cores que embeleza o espaço. Castanhos, bordeaux, laranjas.

A meio da sala, pendurado no tecto, um espanta espíritos. Metade sol metade lua, deixa soltar aquele som peculiar de quando se entra numa típica loja chinesa de antiguidades. Levantas-te, consegues tocá-lo com os teus cabelos e o tom das canas de bambu acaba por soar.

Olhas o cavalete a um canto da sala com uma tela de nós meio pintada. Aspiras o cheiro suave a guache e pegas num pincel. Sentes a tinta ressequida e perguntas-me porque não voltei a pintar. Encolho os ombros, permaneço nas minhas divagações e tu aproximas-te de mim. Enrolas os teus braços no meu pescoço, beijas-me o cabelo e deixas-me ficar, absorta, na minha escrita.

Há velas, muitas velas. Acendes uma com aroma a baunilha e eu inalo o cheirinho doce que me acalenta a alma e me faz sussurrar as palavras que escrevo.

Escolho a música que me faz voar e aumento o volume da aparelhagem escondida na parte inferior da secretária onde me sento. O Purple Rain de Prince quebra o silêncio que existe entre nós e eu escrevo, sem parar. Surgem imagens vindas do meu imaginário, nascem  histórias que lanço para vós.

Passeias pela sala e eu continuo aqui, no mesmo lugar. Paras junto ao móvel de cerejeira maciça, frente ao sofá chaise-longue, onde estão arrumados os livros que trouxe de casa da minha mãe. Alguns de poetas e romancistas que admiro, outros que me transmitem algo. Pegas num daqueles onde mora o meu nome, romances escritos por mim com onze anos apenas.

Folheias o álbum de fotografias, arrumado numa das prateleiras, que guarda as minhas melhores recordações e abres um baú de madeira onde arrecado momentos. Ao lado, um poema emoldurado da minha avó dedicado a mim.

Há um candeeiro de pé alto num dos cantos da sala, que ilumina baixinho os retratos expostos numa pequena camilha. Uns meus, outros de quem me é querido, onde estão marcados os nossos sorrisos. Agarras em cada um deles e sorris também.

Passam as horas, pegas no puff preto colocado sobre a alcatifa multicolor e sentas-te a meu lado. Encontras uma folha de papel amarelecida pelo tempo, perdida no porta revistas de ferro forjado pousado no chão entre o cavalete e o sofá amarelo, e lês aquela carta antiga que escrevi para ti.

Agarras-me a mão com uma força excessivamente grande, admiras a sala de uma ponta à outra, murmuras a palavra oriental e desapareces no silêncio da noite deixando no ar um rasto de ti.

Aqui, de onde vos escrevo, a saudade tem cor e presença. Aqui, neste meu cantinho, escrevo por entre luz, aromas, sons, pinceladas, memórias e fantasias.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a recordar
a música que estou a dançar: Love theme de Jack Nitzsche


Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
A Floresta

 

 

Foi na floresta que encontrei o segredo da amizade.

Sempre que subo àquela árvore tu estás lá, à minha espera. Um homem pequenino, com alma de criança e coração de anjo.

Conheci-te naquela manhã de Outono. O solo estava coberto de folhas caídas e tu surgiste por entre as árvores gigantescas daquela floresta mágica. Lembro-me que cantarolava saltitante e, ao ver-te, parei assustada. Mas o teu sorriso bondoso de menino fez-me sentir um certo fascínio e fui ao teu encontro.

Estendeste-me a mão e subimos à árvore mais alta.

Constaste-me a tua história, falaste-me das tuas raízes, disseste-me que não tinhas amigos e que te sentias só, que não podias apaixonar-te porque nunca irias crescer. Eu confessei-te que, ao contrário de ti, não queria crescer porque era feliz enquanto criança.

Perdemo-nos nas horas, do tanto que conversámos.

Desde esse dia, nunca mais nos separámos. Encontramo-nos, em segredo, pela manhã até ao anoitecer. Na mesma árvore falas-me de ti, eu conto-te as minhas histórias e, juntos, admiramos a magia da floresta.

No fim de contarmos os nossos segredos damos as mãos, soltamos beijos e abraços. Descemos a árvore e corremos pela floresta até nos cansarmos.

Quando chega a hora da despedida, dizemos um ao outro:

- Amigos, até sempre. Boa noite.

Os anos passam e continuo a ir à floresta todos os dias. Saio de casa antes do amanhecer para, juntos, vermos o sol nascer. Assistimos ao crescer do dia e despedimo-nos quando a lua ilumina o nosso lugar.

Somos os maiores amigos de todo o sempre. Inquebrável o nosso sentimento valioso, fruto de um encontro marcado pelo destino numa floresta encantada.

Através de uma amizade genuína, aprendemos a acreditar que nunca estaremos sós. Tu, um menino que não conseguiu crescer. Eu, uma menina que nunca quis deixar de ser criança.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


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Domingo, 27 de Setembro de 2009
Parabéns, Maria das Quimeras

Desejo à minha querida amiga Maria das Quimeras um excelente Aniversário!

 

 

Espero que o teu dia seja preenchido com tudo de bom que mereces. Miminhos, prendinhas boas, abracinhos apertados e muitos, mas muitos sorrisos... tudo na companhia de quem amas.

Que seja, então, um daqueles dias... inesquecível, para guardares no baú das tuas melhores recordações.

 

Muito obrigada pela tua amizade.

 

Sê feliz, Amiga!

 

Beijinhos mil e sorrisos... muitos, ao longo do teu percurso...

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me:
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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
As Pontes de Madison County

 

 

'Meu querido Robert,

 

Se esta carta chegar até ti, estejas onde estiveres, não farei já parte desta vida. Terei embarcado numa outra viagem, aquela que tu já conheces. Levo-te comigo no coração e procurarei por ti até te encontrar.

Escrevo-te para agradecer a história de amor que vivemos, aquela que sempre quis ter e que só tu me conseguiste proporcionar.

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que chegaste às colinas de Iowa no teu velho Chevrolet. Trazias o ar rude dos anos marcado no rosto, mas um sorriso leal e um olhar terno.

Lá estava eu, no alpendre de madeira da quinta, a respirar mais uma tarde escaldante de Verão. Tu, um fotógrafo da National Geographic aventureiro e de alma nómada, vinhas em busca das pontes que povoam Madison County.

Senti-te perdido e ensinei-te o caminho. Levei-te a conhecer a ponte Roseman, onde ficaram as marcas daquele que foi o início inesperado da nossa história de amor.

Contigo, descobri que o amor existe na sua verdadeira essência. Contigo, aprendi a amar. Ensinaste-me que quando os sentimentos são puros e os gestos delicados, a nossa vida transforma-se e tudo parece perfeito.

Contigo, consegui elevar os meus sentidos mais profundos e que desconhecia ter. Juntos conseguimos partilhar duas vidas e vivê-las de uma só vez. Contigo, a minha vida ganhou brilho.

Recordas-te da nossa dança? Lembro-me do teu olhar quando surgi dentro do vestido que usei só para ti. Tocámo-nos tão suavemente que conseguíamos escutar o palpitar dos nossos corações. Vivemos dias de uma beleza tão rara que quase me pareceu um sonho.

Estou-te grata por isso. Pelo teu carinho, pelo teu amor, pelos dias em que foste o meu verdadeiro companheiro.

Sei que andas por aí, quem sabe por perto.

Recebi a caixa que me enviaste com todos os retratos que tiraste, todas as fotografias que captaste, todas as imagens que gravaste. Trouxe tudo comigo. O crucifixo que te dei naquele fim de tarde na pradaria, o álbum e as palavras que me dedicaste. Ainda trago comigo o teu cheiro, está gravado na minha pele.

Acredita que, se estivéssemos vivos, largaria tudo e iria ao teu encontro. Depois da morte do meu marido procurei por ti, mas não consegui encontrar-te. 

Após o meu desaparecimento, os meus filhos tiveram dificuldade em aceitar a  nossa história mas, depois de tantas descobertas, deram-me todo o apoio emocional que alguma mãe pode ter.  Consegui senti-lo, ao longe. Senti lágrimas correrem pelos seus rostos ao lerem a mais bela história de amor que alguém pode viver.

Passei todos estes anos com o peso da traição e nunca poderia abandonar a minha família. Apesar de um matrimónio quebrado pelo silêncio e uma indiferença vindos de há longo tempo e quase insuportáveis, não poderia ir na tua direcção. Não conseguiria deixar para trás os meus dois filhos.

Aquele dia chuvoso em que partiste para sempre foi o mais marcante da minha vida. Não consigo esquecer o teu gesto, aquele em que colocaste o crucifixo que te dei no espelho retrovisor do teu velho Chevrolet, enquanto esperavas por mim. Por momentos, que me pareceram tão longos quanto a dor de uma perda, senti-me entre o  partir e o ficar. Estive prestes a sair e chamar por ti, lançar-me nos teus braços e deixar-me ir.

Deste-me a maior prova de amor que alguém pode dar e eu acabei por ficar. Porque não podia partir. Nunca conseguiria ser feliz na sua plenitude, mesmo que a teu lado. Compreendes-me?

Não voltei a ver-te. Separámo-nos mas estivemos sempre juntos, porque os nossos corações uniram-se no dia em que nos conhecemos e ficaram ligados até à morte.

Pedi aos meus filhos a minha cremação. Concretizaram o meu desejo e lançaram as minhas cinzas às águas do rio que passa por baixo da ponte Roseman. Naquele lugar estão guardados segredos nossos, pedaços da nossa felicidade.

Hoje procuro por ti, procurarei até que me seja permitido. Quero ver-te chegar, reviver o nosso amor, viver a nossa história inacabada. E acredito que conseguirei encontrar-te, porque sinto que também tu procuras por mim.

Até breve, meu amor.

 

Eternamente tua

 

Francesca'

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: com vontade de rever o filme


Domingo, 6 de Setembro de 2009
Fábrica de Histórias

 


 

Vejo-me a passear por entre divagações e encontro uma fábrica de histórias pousada numa nuvem branca. A seu lado uma outra nuvem, de mil cores, onde um grupo de operários partilha os seus sentidos de mãos dadas.

A porta está aberta. Entro na nuvem, estendem-me a mão e juntos criamos uma dança especial. É o baile das palavras que nos unem, por entre uma aliança de almas que se tocam num gesto encantador.

Consigo ouvir as nossas vozes que sussurram por entre a música que toca sem parar e as palavras ecoam em nosso redor, as histórias pairam no ar.

Há pedaços de prosa, pedaços de poesia guardados num cantinho de nós e a inspiração que nos espera sorri-nos através de uma nuvem coberta pelo imaginário que nos envolve.

Há escritas floridas enviadas e recebidas com carinho. São brancas como a paz, azuis como o mar, verdes como a esperança, de mil cores como os nossos sorrisos.

Ganhamos asas, voamos num céu que nos ampara e pousamos na praia que nos espera.

Damos as mãos sentados na areia dourada e emergem as nossas histórias que cantam com as gaivotas que sobrevoam a beira mar. É um cântico que nasce de um abraço construído de mil contos de encantar. As palavras soam num verso inigualável, enchem-nos a alma, trazem consigo um pouco de mar.

As ondas vêm até nós para nos beijar e eleva-se o nosso sentir. Mergulhamos nas suas águas como sereias a ondular nas profundezas de um oceano. Há uma fantasia que se aproxima de mansinho e chega até nós.

E desta forma tão sublime cresce a fábrica de histórias que encontrei, que abriu as portas de par em par e, tão delicadamente, me deixou entrar. A fábrica é azul, parece o sol a reflectir-se no mar.

As mãos estão dadas, a dança é perfeita, a arte eterna. Estamos na linha do horizonte.

Há cenário mais belo do que este?

Somos nós...

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

É uma honra fazer parte do grupo de operários da Fábrica de Histórias criada paralelamente  à Autores Editora, verdadeiros construtores de sonhos, e cujo projecto nasceu há um ano. Estão de parabéns!

Muito obrigada por existirem, muito obrigada por fazerem parte da minha vida.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: uma operária florida
a música que estou a dançar: a do blog
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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
A Lua, o Lobo e Eu

 

 

Levanto-me a meio da noite. O sono teima em manter-se afastado.

Sinto-me vaguear pela casa. Há memórias de ti aqui e ali, pedaços de nós marcados no chão que piso descalça, aquele por onde caminhaste um dia.

Lá fora, uma noite de luar. Olho as estrelas e respiro o ar ameno. Está tudo tão sereno. Tento alcançar a lua que vai crescendo ao longe. Conto-lhe histórias, deixo-lhe segredos que guarda no colo.

Do outro lado do mundo, os lobos vagueiam no silêncio de uma noite fria e esperam pela lua cheia que tarda em chegar. Há uivos escondidos na sua alma bravia que insistem em soltar-se.

Queria eu também chamar por ti num grito, qual lobo solitário que clama por uma companheira num gemido incessante.

Não és tu, ó lua, a minha eterna confidente?

 

Uivam os lobos, chora quem ama...

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: com alma de lobo
a música que estou a dançar: não há música, apenas o silêncio da noite
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
Às vezes

 

Às vezes, sinto medo.

Medo de não ter tempo. Tempo para viver a minha história, aquela que inventei para mim.

Não tenho medo da solidão, porque nunca estarei completamente só. Há anjos que me envolvem a alma, há uma imensidão de palavras que me rodeiam e vou voando por entre o meu imaginário.

Mas, mesmo assim, por vezes sinto medo. Medo de não conseguir voltar a encontrar-te. Medo de não poder dizer o que está guardado num baú cheio de ti, onde habita a tua imagem, onde mora o que não chegaste a ser.

Mas, às vezes, sinto esperança. Esperança de voltar a ver-te, sentir-te perto, de olhar-te nos olhos, poder tocar o teu rosto, de abraçar-te.

Outras vezes, tudo se desvanece. O medo e a esperança. Deixo de ter medo, mas foge-me a esperança. E embrulho-me num misto de verdade e mentira, numa contradição de ter medo e não ter, de ganhar esperança e perdê-la.

Tantas outras vezes me pergunto o que fomos noutra vida, o que nos separou e o que nos fez reencontrar. E não há respostas, mas existem os sentidos. Sentidos que me fazem acreditar às vezes e, outras vezes, desacreditar.

Por vezes, anseio ir ao teu encontro. Umas vezes, o vento empurra-me para trás e não me deixa prosseguir. Outras vou em direcção a ti mas, quando chego ao teu lugar, acabaste de partir.

Às vezes choro, outras tantas rio. Às vezes falo e outras fico calada. E tantas vezes escrevo para ti, tantas vezes grito por entre palavras vãs. Tantas outras me deixo ficar na dança do meu silêncio.

Tantas vezes, quase todas, perco o tempo a pensar em ti e tantas outras me perco no tempo por um pensamento de ti.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: com saudade
a música que estou a dançar: Here I am de Leona Lewis
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Perdida

 

Descrição de um sono onde habita o surreal.

 

(imagem retirada daqui)

 

Cruzo-me comigo mesma por entre caminhos assombrados. Em cada um deles uma imagem, um ruído. Percorro espaços estreitos vezes sem fim. Em cada esquina, braços estendidos tentam alcançar-me. Vozes em uníssono fazem soar o meu nome. Risos sarcásticos ouvem-se ao longe, gargalhadas repetidas por entre muros erguidos do vazio. Gritos doentios ecoam sem parar, rostos alucinados cruzam-se à pressa por entre a escuridão. Surgem fantasmas de todos os lados, silhuetas disformes chamam por mim.

Perco o rumo, esqueço a minha identidade. Estradas sem saída, direcções cruzadas por entre o desconhecido. Perco-me do mundo, entro em delírio e atravesso o labirinto repetidamente, sem parar. Uma sombra vinda do nada acena-me num adeus incessante. Não sei quem é, não sei o seu nome.

Paro, exausta. Respiro ofegante e estendo-me no chão frio num completo desvario. Adormeço num sono agitado. Passam as horas, os dias, os meses. Os anos ficam suspensos num passado ignorado. Memórias em branco perdidas aqui e ali, num lugar qualquer que não existe.

O meu corpo esguio mantém-se inerte à espera de luz e silêncio. E o tempo corre veloz.

 

Muito tempo depois, tanto que não sei quanto, um pedaço de sol desponta por entre as nuvens que ofuscam o labirinto.

Encontro a saída e descubro um mundo novo.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a ficcionar
a música que estou a dançar: A bigger plan de Lulla Bye
arquivos de dança:


Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
De regresso ao lar

 

 

Estava com saudades vossas... apenas vossas :)

Sim, porque agora... ai! Toca de arrumar, lavar e limpar :(

Prometo responder aos comentários que me deixaram e espreitar os vossos cantinhos!

Beijinhos e abraços!

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: sem vontade para nada
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Sábado, 1 de Agosto de 2009
Férias para que te quero

 

Eu adoro-vos a todos, eu adoro estar aqui...

mas vou fazer como o Garfield!

 

 

Vou levar os meus amigos bem juntinho ao coração...

 

Até breve!

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: livre
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
Carta a quem não lê

 

'Querido Duarte,

 

Sei que não me lês, sei que não entras no meu espaço.

Por isso confesso que não te esqueci, amor da minha vida presente.

Declaro aqui, neste meu mundo, que és tu que existes em cada momento imaginário do meu dia a dia.

Às vezes, vejo-te passar. Finjo que ignoro a tua presença, finjo que me és indiferente, mas és tu quem faz parte dos meus sonhos.

Sei que o tempo vai passar e nada vai mudar. Sabes, meu amor, bastava-me aquela conversa que nunca tivemos e sinto que jamais teremos. Mas as palavras permanecem guardadas num cantinho de mim, à espera do momento em que possa proferi-las.

 

Embarquei no rio das lágrimas que derramei por ti e naveguei na imensidão do sentimento que te sustenho. Desaguei na ternura que me agarra a ti e naufraguei na perda deste amor ausente.

Podia cair uma estrela, que eu estaria aqui para contigo poder abraçá-la. Podia abater o sol, que eu estaria aqui para contigo sentir o seu ardor. Podia ruir a terra, que eu estaria aqui para contigo construir um mundo novo. Podia acabar tudo o que existe que eu estaria aqui, à tua espera.

 

Nunca saberás o meu verdadeiro sentimento, aquele que nutro por ti. Resta-me esperar que o tempo permita que me liberte de ti, um dia.

Mais ninguém conseguirá preencher o lugar que te pertence.

Adoro-te a ti.

 

Tua até sempre

 

Laura'

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: com saudade
a música que estou a dançar: Get here de Oleta Adams
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Sábado, 25 de Julho de 2009
Porta aberta para um Sonho

 

Querido Duarte,

 

Às vezes, sinto-te chegar.

Abres a porta do meu mundo e entras nos meus sonhos devagar. Recolhes-me no teu colo e afagas os meus cabelos lentamente. As tuas mãos percorrem o meu rosto por entre carícias delicadas.

Em redor de nós, um vento brando onde as palavras não pairam. Nada consegue quebrar esta aragem que nos faz levitar.

Apertas-me docemente de encontro ao peito, envolves-me nos teus braços e dançamos num silêncio fiel que nos faz subir até à nuvem mais alta. Enlaçamo-nos por entre gestos de uma ternura quase transcendental.

Respiram-se os nossos sentidos, tocam-se as nossas almas.

É tudo tão suave.

Pára o tempo, acaba o mundo e permanecemos neste misto de amor e inocência.

É uma porta aberta para um sonho que se repete em cada pedaço das horas que vão passando por mim.

 

Tua até sempre.

 

Laura

 

 

Leonor Teixeira

 


sinto-me: do lado de lá da porta
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
o Fim de Nós

 

Querido Duarte,

 

Eu quis ir ao teu encontro, mas voltaste a fugir.

Contigo descobri que não temos a mesma alma. A tua escapou por entre as vísceras do teu coração arrefecido.

Ensinaste-me que não faço parte de ti. E tu não poderás fazer parte da minha vida.

Contigo aprendi que nem o mais grandioso dos amores pode juntar duas pessoas que não têm o mesmo sonho, que não dançam a mesma música. Mesmo aquela que escutam em perfeita sintonia. Não é livre um amor assim.

A nossa música deixou simplesmente de tocar. É hora de esquecer o que não fomos. Ficaram os retalhos perdidos no chão de uma vida apenas. A outra vida és tu e não me pertence.

Fechei o meu coração. Lancei a chave às águas de um rio que corre veloz debaixo da ponte que separa as nossas vidas. Não há retorno. O meu coração está selado.

Mas a minha alma continua a dançar e consegue libertar-se num voo sem limites. E as palavras esperam por mim em volta de uma fogueira numa noite de luar.

E eu não vou fazer soar o teu nome.

 

Laura

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a dançar numa noite de luar
a música que estou a dançar: Black hole sun de Chris Cornell
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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
'Asas Perdidas' - o Livro que me fez Voar

 

Recuperei as Asas que perdi...

Alcancei a liberdade de Voar...

 

  

Sempre escrevi sentimentos de alma.

 

Asas Perdidas é o cantinho das minhas emoções transformado agora em livro, um sonho tornado realidade.

É um livro de poesia branca onde estão expressas divagações minhas. É um livro que fala, essencialmente, de amor.

 

Dedico este livro às mulheres da minha vida. Avó, mãe e irmãs. Sem o seu amor e apoio, não teria sido possível concretizar este sonho.

 

Quero agradecer do fundo do coração à querida Helena da Autores Editora a ajuda preciosa para a realização deste sonho. Sem ela, não teria conseguido alcançá-lo.

Por entre contactos frequentes para a edição do livro fomos criando, passo a passo, laços de afecto. Estou-lhe imensamente grata por tudo.

 

Um agradecimento muito especial a todos os amigos que acompanham o meu blog e me acarinham a cada dia.

Tenho de mencionar dois nomes que me deram uma força inigualável. A minha muito querida Ónix, irmã de sangue, de alma e coração e o meu muito querido amigo José que tem sido incansável nas palavras de apreço. Sem eles, não teria conseguido ir em busca deste sonho, ir à luta até ao fim.

 

A todos, a minha profunda gratidão.

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a Voar
a música que estou a dançar: I believe I can fly de Seal
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Terça-feira, 14 de Julho de 2009
A Magia de uma Flor(deliz)

 

A querida Flordeliz ofereceu-me este miminho que estava guardadinho na minha alma à espera deste dia.

 

  

Agradeço do fundo de mim o gesto e as palavras doces de uma amiga que tem um mundo que nos encanta com a beleza dos seus clics e que nos deixa a sonhar com a magia de cores que nos envolve.

 

Obrigada, querida Flor!

 

 

 

Não vou seguir as regras, mas vou oferecer este selo a todos aqueles que passam por aqui e trazem consigo magia nas palavras.

 

 

Leonor Teixeira

 

 

 


sinto-me: com saudade da magia dos blogs
a música que estou a dançar: A kind of Magic de Queen
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Domingo, 28 de Junho de 2009
Nas nossas mãos

 

 

Nas nossas mãos transportamos o destino que nos foi traçado. É nas nossas mãos que moram as linhas da vida, do amor, da sorte ou do infortúnio. É nelas que reside o enigma do presente e do futuro próximo ou longínquo.

Nas nossas mãos guardamos a esperança, a vontade, um misto de querer e não querer. Com as mãos podemos mostrar a preserverança, a firmeza, a coragem.

Nas nossas mãos está a força de vencer cada batalha, cada luta diária que temos de travar. Através delas conseguimos revelar a sensibilidade, a amargura, a revolta.

Nas nossas mãos está o gesto. É com elas que podemos tocar, sentir, transformar.

É com as nossas mãos que lemos, aprendemos, labutamos. Com elas conseguimos escrever, pintar, decorar as nossas vidas.

Nas nossas mãos carregamos os sonhos, as fantasias, a magia dos segredos. Nelas guardamos o mistério do estar vivo.

Com as nossas mãos podemos unir raças, crenças, culturas. De mãos dadas podemos mudar o mundo.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 




Sábado, 27 de Junho de 2009
Obrigada a todos

 

 

 

Quero agradecer aos amigos mais queridos que tenho aqui na blogosfera a força que me têm transmitido nesta fase menos boa da minha vida.

 

Um agradecimento especial ao meu muito querido amigo José A pelo mimo que me deixou extremamente comovida e à querida amiga Flordeliz pelo post que me dedicou. Conseguiram colocar no meu rosto um sorriso de mil cores.

Não tenho palavras para agradecer todo o carinho e apoio que fizeram chegar até mim. Obrigada pelas palavras de conforto que me têm deixado.

Maria das Quimeras Sindarin Gota de Orvalho. Como retribuir-vos a amizade demonstrada? Terem entrado na minha vida foi algo maravilhoso que me aconteceu. Estou-vos imensamente grata.

 

De salientar o afecto sempre presente da minha muito querida amiga Ónix e do meu grande amigo Segredo que tem estado ausente por aqui, mas nunca se esquece de mim.

 

Em nome do meu amigo que se encontra hospitalizado em estado grave, um agradecimento imenso pelo apoio transmitido por parte de todos os amigos que acima mencionei bem como a Idalina, Jo e Sonhandoaosquarenta.

 

Estão todos na minha alma.

 

Aproveito para referir o prémio que a Green.eyes me ofereceu e ainda não tive oportunidade de agradecer.

 

Obrigada também a quem vai passando no meu cantinho e me vai deixando uma palavra de apreço. Desculpem se não vos menciono a todos.

 

Bem hajam.

 

Adoro-vos!

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: com vontade de escrever
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Domingo, 21 de Junho de 2009
Em busca da Felicidade

 

A busca da felicidade é, para mim, feita de momentos. Podem ser até pequenos gestos mas que me fazem sentir feliz, mesmo que por instantes apenas.

Ter um amigo e ir ao seu encontro é ir em busca de um pedaço de vida em que sou feliz. Poder abraçá-lo, beijar-lhe o rosto, rir e sorrir com ele. A amizade quando genuína consegue transmitir-me uma felicidade extrema. Os meus sentidos fazem com que não me esqueça de quem foi ou é deveras importante, independentemente se foi só por um momento. É como receber mensagens com regularidade de quem gosto de verdade e ter a certeza de que sou correspondida. As expressões de quem as envia tornam-se doces como o mais saboroso dos chocolates. Há uma ternura que transparece e que me transmite uma espécie de serenidade absoluta.

Ir em busca da felicidade é ir ao encontro de quem gosta de mim, é haver tempo para conversas de café em noites frias e risos ao redor de uma mesa de amizade em noites quentes. É um sorriso. De mim para quem goste, para mim de quem amo.

Ir em busca da felicidade é esperar por alguém de quem sinto saudade, esperançada de que as palavras venham desenhadas no seu olhar. É o irromper de um enlace dos sentidos num silêncio de gestos declarados. É embalar num abraço apetecido e respirar ao sabor de uma carícia. É elevar-me na essência de uma dança suave.

Ir em busca da felicidade é recordar com carinho quem me faz sorrir, porque as sensações da alma deixam um significado tão intenso que tudo se torna como num sonho encantado.

Ir em busca da felicidade é ir a casa da minha mãe, sentar-me à mesa numa completa união familiar, ver os gatos a brincar, ouvir as cigarras a gritar e os grilos a cantar.

Ir em busca da felicidade é sonhar. É ser criança até sempre, porque é uma fantasia que renasce, é uma bola de sabão. Ir em busca da felicidade é cheirar o mar, respirá-lo, olhá-lo, sentir a paz que me consegue transmitir. É sentir os pés na areia fresca da manhã e à beira mar nos fins de tarde.

Ir em busca da felicidade é sentir-me livre para o que me vai na alma. É ouvir aquela música que chama por mim e conseguir esquecer que o mundo existe. É dançar, porque a dança existe em mim e faz-me voar.

Ir em busca da felicidade é escrever o que sinto, porque existem sonhos que se conquistam e se perdem e assim vou declarando a minha verdade. É continuar a escrever, porque a alma não fala e eu quero partilhar o meu sentir através de palavras até então silenciadas. Porque quero deixar escrito que quando estou aqui, comigo própria e convosco, esqueço o mundo lá fora. Porque quero manifestar o meu querer, a minha vontade, os sentimentos e momentos que guardei.

Ir em busca da felicidade é escrever no meu cantinho até sempre, porque é aqui que a minha alma voa através das palavras que dançam sem voz. É o abrir o baú dos meus sentidos por entre este silêncio mágico.

 

Mesmo que os momentos não se repitam, fica a lembrança da beleza que vivemos. E ao recordar esses instantes de sorriso aberto é, para mim, ir em busca da felicidade.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias, construído a partir de excertos de vários textos meus)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


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Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Volta depressa para nós

 

Perdeste-te nos dias e ficaste do outro lado da vida. Não sei se voltas.

Fico deste lado entre lágrimas e sorrisos. São lembranças dos tempos de outrora que não se repetem. Passam os anos, separam-se as gentes da terra que nos viu crescer.

Onde ficámos nós? Afectos conquistados, laços construídos, momentos partilhados deixados para trás. Abro o álbum de fotografias e sinto uma angústia quase insuportável. As lágrimas caem e a alma dói. São vidas separadas por um destino incerto, viagens marcadas para lugares diferentes.

E choro. Choro por ti e por quem te guarda no coração. Choro, porque não consigo alcançar um sinal de esperança. E morrem os dias na agonia de nada poder fazer.

Tens de voltar, tens de viver. Há tanto que ainda tens por sonhar.

Espero o teu regresso, acendo uma vela e rezo por ti. Nas minhas preces reclamo o teu nome, imploro a tua vida.

 

a um amigo

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: a querer ficar em silêncio
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Voltar a ser criança

 

Querida mãe e querida avó,

 

Venho pedir-vos que me deixem ser criança até sempre.

Quero acordar de manhã, ficar nos vossos braços durante tempos infindos e receber os mimos que só vocês sabem dar.

Quando o sol brilhar, quero dar as mãos às manas e ir com elas para o quintal jogar à apanhada, ao elástico e saltar à corda.

Quero sentir o padeiro chegar e ir a correr para comer o pãozinho fresco. Sentar-me à mesa da cozinha a ver livros aos quadradinhos e, através da janela aberta de par em par, olhar para a avenida com as árvores recheadas de lilases.

Quero ver as lagartixas passarem rente aos canteiros floridos, apanhar as rosas vermelhas do roseiral, pendurar-me na nespereira e balançar-me até me cansar. Comer as laranjas e as tangerinas fresquinhas e saborosas e respirar o cheirinho da flor de laranjeira na Primavera.

À tardinha, enquanto o sol se vai escondendo lá ao fundo, quero brincar ao jogo das palavras e construir as casinhas de lego que vou inventando.

Quero que me deixem escapar para o olival acima do nosso quintal. Trepar pela figueira grande e esconder-me por entre as árvores enquanto vocês, minhas queridas mãe e avó, chamam por mim. Quero construir uma casinha no meu 'bosque'. É o cantinho onde guardo os meus segredos.

Quero brincar com os nossos gatinhos, apertá-los docemente nos meus braços e não os deixar partir.

Quero ir a pé para a escola sem medo e deixar as portas de casa abertas. Quero aprender a ler, a escrever, a desenhar, a pintar. Quero soltar gargalhadas de alegria nos intervalos e fazer uma roda de harmonia com os meninos e meninas da minha aula.

Depois da escola, quero ir com as manas e os amiguinhos à feira de Março andar no carrossel e nos carrinhos de choque, correr sem parar, cantarolar e comer algodão doce.

Nas férias grandes quero pôr a mochila às costas e, bem cedinho, caminhar saltitante até às piscinas para mergulhar, nadar e fazer golfinhos.

Quero ir à praia respirar o cheirinho do iodo, chapinhar à beira mar e construir castelos na areia até o sol se por.

Nas noites quentes de Verão quero subir ao telhado da nossa casa, sentar-me a ver as estrelas e deixar-me ficar a sentir a luz da lua.

Antes de adormecer quero que me leiam uma história de encantar, querida avó e querida mãe, e no final trocar convosco beijos de ternura.

Quero continuar a ser criança. Quero continuar na inocência, quero continuar a brincar.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 




Domingo, 31 de Maio de 2009
A cor dos meus dias

 

 

Há cores vivas que se cruzam e se fundem por entre o negrume dos dias. São as cores dos meus sonhos.

Há um cântico azul que aquieta a minha alma cinzenta. São sereias celestes que ondulam por entre as ondas brancas de um mar ciano. Para lá dos oceanos, o céu vai mudando de cor. Do amarelo nasce o laranja solar que se esconde num horizonte pintado de uma cor indefinida. É um misto de cores brilhantes que se reflectem na areia dourada que piso.

Do dia se faz noite e mudam-se as cores. Há estrelas de prata que dançam no céu e a lua cintila de branco.

E permaneço num sonho, qual fantasia colorida que se cria. É verde como a relva suave de um campo florido.

Uma chuva cristalina cai sobre nós e dançamos ao sabor de uma paixão que nos é púrpura.

E pinto-te. Pinto-te a ti, pinto-me a mim. Pinto-nos em telas brancas e deixo as cores do que te sinto. Há pinceladas rubras que ficam marcadas.

Em redor de nós, um cenário tingido com as cores do arco íris.

 

 

 

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)

 

 

Leonor Teixeira

 

 


arquivos de dança: ,


Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
...

 

Sem tempo...

 

(imagem retirada daqui)

 

 

Mas com os meus amigos no pensamento...

 

 

Leonor Teixeira

 

 


sinto-me: com saudade
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Saudosista, muito. Romântica, bastante. Indecisa, por vezes. Distraída, quanto baste. Rebelde, em demasia. Forte, sempre.

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